Jovem morreu após entrar na jaula dos leões em zoológico de João Pessoa Foto: @vox_pb via Instagram
Gerson de Melo Machado, 19 anos, entrou numa jaula de leões em João Pessoa (PB), para não mais voltar. Conhecido como “Vaqueirinho”, o jovem teve sua história marcada por violações de direitos e desumanização. Era diagnosticado com esquizofrenia, tendo sido separado de seu contexto familiar e institucionalizado múltiplas vezes.
Antes de entrar na jaula dos leões, Gerson foi jogado em outras jaulas igualmente perigosas e violentas desde a sua infância. Jaulas da pobreza, e outras tantas que se supõem acolhedoras, abrigadoras, educativas, socializadoras ou de tratamento.
Sua morte é mais um sinal de falência desta sociedade. Por outro lado, é também uma amostra da vitória e do sucesso desta mesma sociedade que se pauta no enjaulamento, a fim de sua própria reprodução.
Na sua carta de demissão como psiquiatra e diretor do Hospital Psiquiátrico de Blida-Joinville, na Argélia, em 1956, Frantz Fanon diz o seguinte: “A função de uma estrutura social é edificar instituições atravessadas pela preocupação pelo homem. Uma sociedade que encurrala os seus membros em soluções desesperadas é uma sociedade inviável, uma sociedade a substituir”.
Vivemos numa sociedade que encurrala seus membros como Gerson, da mesma forma que faz com os bichos, em soluções desesperadas. Zoológicos, manicômios e prisões. Pessoas como Gerson são enjauladas desde a idade mais tenra. Alguns já nascem enjaulados, aliás.
Para que isso tudo seja ocultado, distorcido e, pior, para que seja justificado e naturalizado, pessoas como Gerson precisam ser desumanizadas, física e simbolicamente. Assim, fica fácil aceitar e defender que para não-humanos com Gerson, o que resta são jaulas.
Não à toa, um dia depois de sua morte, foi publicada a decisão de internação de Gerson em Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP), também conhecido como manicômio judiciário, e que já deveria estar fechado em cumprimento à Lei 10.216/2001 e à Resolução nº 487/2023 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). É como se, numa piada de mau gosto, sem humor nenhum e apenas perversidade, o judiciário dissesse que para Gerson só restava mesmo a jaula – para humanos.
Segundo matérias jornalísticas, Gerson sonhava em ir à África domar leões. Mal sabia ele que já era mestre em domar as violências as quais fora submetido e que também o moldaram. Seus comportamentos tidos como infrator, criminoso, sempre foram meios pelos quais Gerson se punha a domar o indomável: a violência de nossa sociedade. A normalidade de sua anormalidade.
O simbolismo aqui salta aos olhos. O indomável que sonhava em domar outra espécie, tida como indomável. Talvez, Gerson se espelhasse na liberdade dos leões nas savanas. Talvez, ao olhar os leões livres no espelho, ele enxergasse a sua própria imagem de aprisionamento.
Por isso mesmo, entrar numa jaula talvez fizesse sentido. Ver aquele animal, que é um exemplo de indomável, só que enjaulado, para poder crer que as jaulas não eram exclusivas a ele. Libertar a leoa para libertar a si mesmo. Talvez, Gerson não quisesse ir à África domar leões. Pelo contrário, seu desejo poderia ser o de ver, de tocar e conhecer a liberdade – aquela que nunca teve.
Não bastando as jaulas que teve que driblar e domar durante a sua vida, Gerson foi jogado em outras após a sua morte. Nas redes sociais, inundaram comentários, compartilhamentos a regozijar a morte do Vaqueirinho, como forma de punição ao que ele não era; como se ele merecesse ter sido estraçalhado e morto; como se nem mesmo a jaula era suficiente para ele.
Às pessoas como Gerson – ou melhor, às não-pessoas como Gerson –, prender não serve mais: é necessária a morte. Pior, é preciso ver, filmar, postar e comemorar sua morte, continuando a matá-lo. Parece que Gerson ainda está na jaula, só que agora sendo estraçalhado por bocas, mãos e dedos humanos – muitos deles que nem o conheciam.
Por fim, não sou religioso, mas não consegui deixar de pensar na Bíblia, especificamente no versículo 22, do capítulo 6º, de Daniel: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; e também contra ti, ó rei, não tenho cometido delito algum”.
No caso de Gerson, e de nosso mundo terreno, infelizmente o anjo não fechou a boca da leoa, mesmo tendo toda a inocência do Vaqueirinho diante dela. A leoa agiu como uma leoa. Inclusive, que ela possa ser bem cuidada, já que não tem culpa de nada – até porque ela também está enjaulada.
A questão a se perguntar é: por que nós, como sociedade, não temos agido humanamente com humanos como Gerson, cuidando deles?
Pedro Costa é membro do Grupo Saúde Mental de Militância do Distrito Federal UnB.
Fonte: Brasil de Fato
















