terça-feira , 20 outubro 2026
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Sinto que o Brasil não irá se recuperar, afirma Caetano Veloso sobre autoritarismo

Caetano Veloso disse se preocupar com o futuro do Brasil e o ressurgimento de sentimentos autoritários. “As coisas estão tão ruins hoje em dia. O Brasil parece irrecuperável. Mas, ao mesmo tempo, a sensação de que ele ainda pode dizer algo importante ao mundo, persiste”, disse ele ao jornal espanhol El País.

O cantor brasileiro se apresenta em Madri no dia 4 de junho, como parte da turnê “Caetano nos Festivais”, que já passou por Portugal e virá ao Brasil no final do mês. “Há pessoas que dizem publicamente que gostariam que a ditadura militar voltasse. E dizem isso como se não fosse nada”, afirmou ainda o artista.

Um artista se apresenta em um palco, usando um traje branco. Ele está de pé, com os braços levantados e um microfone na mão, sorrindo enquanto canta. O fundo é iluminado com luzes azuis e brancas, criando uma atmosfera vibrante.

Caetano Veloso em show no festival Sensacional, em Belo Horizonte, em 27 de junho de 2025 – Bruno Figueiredo/Bruno Figueiredo/Divulgação
“Prisão, confinamento e exílio foram experiências muito dolorosas. Ficamos presos durante dois meses, depois confinados vários meses em Salvador e, em seguida, exiliados por mais dois anos. Isso até mudou minha perspectiva sobre o mundo.”

Expoente do tropicalismo, movimento musical que misturou o rock, o pop e repertórios nacionais, Veloso é reconhecido pela postura crítica com que confrontou a ditadura militar. Segundo ele, a mistura entre diferentes culturas incorpora outras lógicas à luz da internet.

“Essas ideias foram saudáveis para o Brasil por muitos anos. Mas hoje, com o mundo digital e mudanças tecnológicas, a situação é diferente. Muitas pessoas novas aparecem constantemente nas redes sociais, e é muito difícil saber quem é realmente especial.”

Segundo o cantor, apesar da velocidade caótica com que tudo acontece atualmente, ainda é importante reconhecer o Brasil como parte do mundo e absorver influências sem se subordinar a elas.

“Não existe pureza cultural na América. Queríamos mais energia criativa, e foi por isso que não aceitamos a defesa rígida da tradição.”

Questionado sobre a defesa da ambiguidade estética e sexual, isto é, a diversidade de formas artísticas e a mistura entre convenções associadas aos gêneros masculino e feminino, Veloso afirma que discussões do tipo parecem ganhar cada vez mais espaço.

“Quando escrevi ‘Verdade Tropical’ [sua autobiografia de 1997], eu disse que a esquerda precisava prestar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje, vejo que há muita racialização, sexualização e ênfase em questões de gênero. Isso gera muita confusão.”

Fonte: Folha de São Paulo  

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