terça-feira , 20 outubro 2026
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Benito di Paula repensou o samba com piano e romantismo popular

 O cantor Benito di Paula – Murilo Alves/Divulgação.

Uma história famosa sobre Benito di Paula tem a ver com Ella Fitzgerald. A cantora americana de jazz decidiu gravar “Madalena”, composição de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, depois de ouvir o cantor fluminense, morto no domingo (18), aos 84 anos, tocá-la em uma boate com seu piano suingado.

Mas, enquanto o brasileiro influenciou uma lenda do jazz americano, o contrário não é bem verdade. Embora alguns enxerguem uma veia jazzística na obra de Benito di Paula, o próprio cantor dizia que não gostava do gênero e não citava artistas desse estilo entre suas inspirações.

Essa percepção tem a ver com a centralidade do piano em sua música. Benito reimaginou o samba batucando nas teclas e acrescentou a ele o romantismo da música brega, um retrato apaixonado do Brasil e uma latinidade de raiz africana. Fez sucesso comparável ao de Roberto Carlos nos anos 1970. Sua produção diminuiu nas décadas seguintes, mas sua visão original do samba resistiu ao tempo.

Do violão ao piano

Fluminense de Nova Friburgo, Benito di Paula desenvolveu sua musicalidade apresentando-se em boates e bordéis. Aprendeu a tocar violão com o pai e criou sua linguagem ao piano por conta própria, transpondo para as teclas os acordes do violão.

Quando o pianista da banda de baile de uma casa noturna faltou a um show, Benito assumiu o posto. Seu jeito expansivo de tocar chamou a atenção, e ele nunca mais largou o piano.

Quando começou a carreira, na década de 1960, outros músicos brasileiros já transpunham a linguagem percussiva do samba para o piano. Johnny Alf recorria à síncope do estilo brasileiro, enquanto João Donato criava desenhos rítmicos mais ligados ao toque do tamborim. Os dois incorporavam influências do jazz e as harmonias intrincadas da bossa nova.

Benito vinha de outra linhagem. Fã do sambista Ataulfo Alves, dizia que adorava bossa nova, mas achava o gênero muito difícil de tocar. Enquanto o estilo de João Gilberto e Tom Jobim prezava pela complexidade harmônica, pelo canto sussurrado e por uma melancolia contida, Benito preferia acordes mais simples, cantava como um crooner romântico e nunca rejeitou o drama.

Trabalhando no circuito de boates e cabarés, recebeu uma proposta para ganhar em Santos, no litoral paulista, o dobro do que recebia no Rio de Janeiro. Foi em São Paulo que assumiu o piano e desenvolveu seu balanço nas teclas. Partia do samba, mas tinha forte inspiração em ritmos afro-cubanos, como o mambo.

“Eu ouvia muito, e adorava, Perez Prado e Tito Puente. Aquilo ficou. Quando montei um trio para tocar num hotel, [a bateria] já não fazia mais [ele faz o ritmo do samba com a voz]. Era sempre direto no chimbal, com o bumbo fazendo os dois [toques] do samba e a outra mão fazendo o que quisesse. Aí, bicho, virou um ‘chá chá chá’, uma coisa que todo mundo adorava”, disse a Charles Gavin no programa O Som do Vinil, do Canal Brasil.

Foi também em São Paulo que conheceu os donos da gravadora Copacabana, responsável por publicar a maior e mais importante parte de sua discografia. Benito lançou compactos na segunda metade da década de 1960, mas estreou em disco em 1971.

Sucesso nos anos 1970

O álbum de estreia mostrava um Benito mais retraído do que o artista despojado que despontaria nos anos seguintes. Era também uma obra mais de intérprete do que de compositor. O disco deixou de ser vendido porque continha uma versão de “Apesar de Você”, de Chico Buarque, censurada pela ditadura militar.

O segundo álbum, lançado no ano seguinte, tinha outra cara. “Violão Não se Empresta a Ninguém”, faixa de abertura, começava com um cavaquinho e não deixava dúvidas sobre sua natureza sambística. “Ela”, composição de Benito que deu título ao álbum, fez sucesso na voz de Jair Rodrigues e deu à gravadora a senha para apostar na caneta — e não apenas na voz — do artista.

“Um Novo Samba”, de 1974, estabeleceu Benito no imaginário do público brasileiro. Com 11 faixas, todas escritas por ele, o disco consolidou a imagem clássica do cantor: smoking, joias, bigode ostensivo e uma cabeleira vasta. Também firmou sua estética entre o samba e a música romântica popular.

É desse álbum “Retalhos de Cetim”, hoje um clássico do samba. A canção aproxima a percussividade da escola de samba do canto sofrido de um bolero. Na letra, o personagem procura a melancolia em meio ao Carnaval e chora na avenida com o coração partido.

A partir daí, Benito emplacou sucesso atrás de sucesso e tornou-se figura constante na vida pública do país. Estava na televisão, no rádio e nos toca-discos. Compôs “Amanheceu”, em 1975, especialmente para Roberto Carlos, com quem chegou a rivalizar nas vendas de discos, na casa dos milhões. Muito antes da atual onda de megashows, tocava em estádios de futebol pelo país.

A lista de sambas românticos do cantor é extensa. A sequência de “Modificação” e “Vai Ficar na Saudade”, ambas do álbum autointitulado de 1975, aproxima-se do brega paraense. “Não Precisa me Perdoar” e “Como Dizia o Mestre”, do mesmo disco, retratam homens em profundo sofrimento após um desentendimento amoroso.

As músicas de Benito, no entanto, não se resumiam às letras românticas. Também retratavam a cultura, a sociedade e a paisagem brasileira. “Sandália de Couro”, introduzida por uma cuíca, combina as duas coisas: um apaixonado se lembra da amada enquanto passeia por Salvador. A Bahia aparece com frequência em sua obra, como nas canções “Bahia”, de 1977, e “Maria Baiana Maria”, faixa de abertura de um de seus discos clássicos, lançado em 1976.

Esse mesmo álbum, também chamado “Benito di Paula”, traz músicas como “Meu Brasil Meu Doce Amado” e “Tudo Está no Seu Lugar”. A exaltação do país em algumas de suas composições, somada à afirmação presente no título da segunda canção, motivou críticas de que o cantor estaria fazendo músicas para o regime militar.

Em entrevista ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, Benito definiu as críticas como “um momento de muita covardia de muita gente”.

“Quando saí de Friburgo, minha casa estava caindo. Mamãe com 13 irmãos. Eu tinha que trabalhar, não dava para estudar. Não sei como vim parar em São Paulo, como encontrei Ella Fitzgerald, Stevie Wonder, Ravi Shankar. Todo mundo me dando apoio. Enfrentei duas ditaduras horríveis — a do Getúlio e essa outra estúpida aí. Faço essa música porque dei duas casas para minha mãe, com o suor do meu trabalho honesto e a ajuda de Deus. Aí vêm uns babacas, sem o menor pudor, dizer que fiz música para a ditadura. A ‘dita’ deles é que não está dura — nunca estiveram.”

O “sambeiro” e o “pianeiro”

Benito já contou que morou em favelas, como o Morro da Formiga, na Tijuca. Quando melhorou de vida, em Santos, mudou-se para uma pensão de italianos, que recebiam histórias em quadrinhos de Charlie Brown. A música do cantor que leva esse nome nasceu da ideia de apresentar ao personagem as coisas do Brasil — da torcida do Flamengo a Luiz Gonzaga.

O rei do baião, aliás, foi homenageado por Benito em “Sanfona Branca”, de 1975, época em que o pernambucano estava em baixa e o fluminense, em alta. Gonzaga ficou tão agradecido que lançou “Chapéu de Couro e Gratidão”, citando o fã. “Como é bonito, Benito”, repete a letra de Aguinaldo Batista.

Ao longo da década de 1980, Benito perdeu espaço na indústria fonográfica. Sua produção diminuiu nas décadas seguintes. Ficou marcado como cantor de “samba-joia”, rótulo criado nos anos 1970 para designar um tipo de samba muito popular, que também incluía artistas como Agepê e Luiz Ayrão. Recaía ainda sobre ele a pecha de brega, por causa do teor romântico de parte de sua obra.

Em entrevista à Folha, em 1997, quando estava afastado dos holofotes, respondeu à acusação de ser “comercial”:

“Ah, mas quem não é? Eu queria ser os Beatles. Quer mais comercial que eles? Isso é que é ser comercial. Nós somos simplesmente comerciais. Só. Se você faz um disco, o que você espera? Que ele faça sucesso. Lotar o Maracanã, como fez o Frank Sinatra, é ser comercial? Fazer duetos com o Tom Jobim e com todo mundo é para vender ou para ficar na prateleira? É para vender. Mas sei que a minha música é a mais simples de todas.”

Questionado sobre o sentido dessa simplicidade, respondeu: “Minha música é popular. Gosto do popular, do povão mesmo. Inclusive eu digo que não sou sambista, sou ‘sambeiro’. Não sou pianista, sou ‘pianeiro’.”

Quarenta anos depois do auge de seu sucesso, e cerca de 20 anos depois daquela entrevista, a música de Benito di Paula resistiu aos modismos e ao teste do tempo. Em muitos casos, fez o caminho de volta. Se o cantor levou o samba ao piano, à noite e aos estádios, Xande de Pilares, desde a época do grupo Revelação, trouxe Benito de volta ao samba mais puro, regravando com sucesso “Do Jeito Que a Vida Quer”.

Como “Retalhos de Cetim”, a canção está presente em muitas rodas de samba pelo Brasil, fazendo justiça ao legado de Benito: o “pianeiro” que recebeu do samba sua estrutura artística e devolveu a ele um cancioneiro à sua altura.

Fonte: Lucas Brêda/Folha de São Paulo 

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