Apesar de sua relevância histórica e cultural no Brasil, a cachaça de alambique ainda convive com um problema estrutural: a alta informalidade na produção. Em Minas Gerais, cerca de 87% dos produtores atuam fora da regularização, segundo dados apresentados durante o Terceiro Simpósio Brasileiro de Cachaça de Alambique, realizado na Universidade Federal de Lavras (UFLA), evidenciando um cenário que impacta tanto o mercado quanto a qualidade e a segurança do produto.
O dado acende um alerta para riscos que vão além da competitividade do setor e atingem diretamente o consumidor. “A produção ainda é muito baseada na tradição, passada de geração em geração. E isso faz com que erros persistam”, explica a pesquisadora Ana Cláudia Silveira Alexandre, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG). Segundo ela, mesmo entre os produtores formalizados, há deficiência no acesso à assistência técnica, o que compromete os padrões de qualidade.
No âmbito federal, o diagnóstico se repete. De acordo com a auditora fiscal federal agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Andreia de Oliveira Gerk, muitos produtores iniciam a atividade sem conhecimento das exigências legais. Atualmente, a estimativa é que apenas cerca de 10% estejam formalmente registrados no país. “A falta de registro ainda é uma das principais irregularidades”, afirma.
Além das questões legais, a informalidade representa risco à saúde pública. Produtos não registrados podem apresentar substâncias como metanol ou níveis elevados de cobre, prejudiciais ao consumidor. No âmbito estadual, a fiscalização e o controle de qualidade ganham reforço por meio de análises laboratoriais realizadas pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). “Os laudos garantem que a bebida esteja dentro dos padrões exigidos, trazendo mais segurança ao produtor e ao consumidor”, explica a chefe de laboratórios do órgão, Lucimere Silva Caldeira Mendes.
Diante desse cenário, ações conjuntas entre Estado e União vêm sendo ampliadas, com foco em capacitação, assistência técnica e fiscalização. Instituições como a EPAMIG atuam na geração e difusão de conhecimento, enquanto o Ministério da Agricultura intensifica a regulamentação e orientação do setor.
A ciência desponta como peça-chave na consolidação da qualidade. Com quase três décadas de atuação na área, a professora Maria das Graças Cardoso contribuiu para o avanço dos processos produtivos, controle de contaminantes e padronização da cachaça brasileira. Esse avanço abre espaço para a certificação da bebida, estratégia que agrega valor e amplia o acesso a mercados, inclusive internacionais.
O tema está no centro do Terceiro Simpósio Brasileiro de Cachaça de Alambique e do Sétimo Seminário da área, realizados entre os dias 16 e 18 de abril, na UFLA. O evento reúne cerca de 250 participantes, entre pesquisadores, produtores e representantes de instituições públicas, com debates sobre qualidade, inovação e os caminhos para reduzir a informalidade no setor.
Entre os destaques da programação está o lançamento da quinta edição do livro “Produção de Aguardente de Cana-de-Açúcar”, obra coordenada por Maria das Graças Cardoso e considerada referência técnica na área.
Para especialistas, enfrentar a informalidade é um passo decisivo para que a cachaça avance como produto competitivo. A integração entre pesquisa, políticas públicas e capacitação técnica é apontada como o caminho para estruturar o setor e fortalecer sua presença no mercado nacional e internacional.
















