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Biografia de Yoko Ono refuta mito de que ela destruiu os Beatles

Yoko Ono no Museu de Arte Moderna de Nova York, durante mostra dedicada ao seu trabalho – Lucas Jackson – 12.mai.15/Reuters

“Destruidora de lares”, “japa feia”, “a namolada de John Rennon”. Assim a imprensa e muitos fãs dos Beatles se referiam a Yoko Ono por volta de 1970, quando os “Fab Four” anunciaram oficialmente sua separação.

Para muitos, Ono era uma mulher sedutora e maquiavélica, que aproveitara a fragilidade emocional de Lennon —que passava por um momento de vício em drogas, especialmente heroína— para entrar na vida dele e acabar com a maior banda de rock de todos os tempos.

A fama de Ono era tamanha que o apresentador de TV Dick Cavett se referiu a ela como “uma das mulheres mais controversas desde a duquesa de Windsor”.

Yoko Ono no Museu de Arte Moderna de Nova York, durante mostra dedicada ao seu trabalho – Lucas Jackson – 12.mai.15/Reuters
À época, poucos lembraram que foi John que, em 1966, se encantara pela artista plástica que fazia uma exposição de arte de vanguarda em Londres. Ono sabia dos Beatles, claro, mas não tinha a dimensão da importância deles: “Eu tinha ouvido falar dos Beatles e conhecia o nome ‘Ringo’, e ninguém vai acreditar em mim, mas Ringo ficou na minha memória porque ‘ringo’ é ‘maçã’ em japonês. Eu não ouvia rock’n’roll, mas conheci John e senti que ele era um homem muito interessante”, diria Yoko numa entrevista.

Uma nova biografia, “Yoko”, tenta fazer justiça à história dessa mulher tão fascinante quanto polêmica. O livro foi escrito por David Sheff, jornalista e autor britânico que assinou reportagens e entrevistas para The New York Times, Rolling Stone e Playboy e ficou famoso com o livro autobiográfico “Querido Menino: Jornada de um Pai Contra a Dependência Química de seu Filho”, em que relatava a luta para ajudar o filho, dependente de metanfetamina. O livro foi adaptado para o cinema em 2018, com Steve Carell no papel do pai e Timothée Chalamet interpretando o filho.

Em setembro de 1980, Sheff era um jornalista novato de 24 anos que recebera a missão de entrevistar Lennon e Ono para a revista Playboy. O casal concordou com a entrevista e os três se encontraram diversas vezes em Nova York num intervalo de três semanas.

A edição da Playboy saiu no início de dezembro de 1980. Yoko ligou para Sheff no domingo, 7 de dezembro, para agradecer pelo texto. Eles combinaram um encontro em Nova York dali a alguns dias. Na segunda-feira, 8 de dezembro de 1980, Sheff assistia a um jogo de futebol americano na TV quando a transmissão foi interrompida para anunciar o assassinato de John Lennon.

Depois da morte de Lennon, Sheff e Ono se aproximaram. Ele a entrevistou diversas vezes e os dois colaboraram em projetos musicais e editoriais. Em 2008, Ono autorizou Sheff a usar o título “Beautiful Boy” —música linda que Lennon fizera para celebrar o filho do casal, Sean— no livro que o tornaria famoso.

Sheff e Ono, portanto, são amigos, e essa proximidade afetuosa poderia tornar o livro, um tanto tendencioso. Felizmente, isso não ocorre. A obra tem uma pesquisa jornalística muito bem-feita e trata Yoko Ono com sobriedade, sem esconder os problemas e temperamento forte de uma mulher que passou por grandes alegrias e grandes tragédias.

Os primeiros capítulos do livro contam a infância e adolescência de Yoko. Nascida em Tóquio em 18 de fevereiro de 1933, era filha de um poderoso banqueiro, Eisuke Ono, e de Isoko Ono, herdeira de uma das famílias mais ricas do Japão. O clã dos Yasuda, no lado materno de Yoko, controlava bancos e instituições financeiras poderosas no país.

“Minha mãe me dizia: ‘Seu pai foi presidente de um banco, mas o meu foi dono de um”, dizia Isoko à filha. Quando Yoko nasceu, ganhou um nome que significava “criança do oceano”. Yoko depois ganharia um irmão, Keisuke, e uma irmã, Setsuko.

A família tinha uma vida de luxo e passou um tempo nos Estados Unidos, onde o pai de Yoko foi trabalhar. Pouco antes da Segunda Guerra, Isoko e os filhos voltaram ao Japão, enquanto o marido foi enviado para comandar uma filial do banco em Hanói, no Vietnã.

Depois do bombardeio norte-americano em Tóquio, que matou mais de 100 mil pessoas, Isoko, Yoko, Keisuke e Setsuko se refugiaram numa pequena vila no interior do país, onde passaram fome e trocavam as posses da família por sacos de arroz.

John Lennon só entra na vida de Yoko Ono depois de 80 páginas do livro, quando Ono já havia vivido o bastante para merecer uma biografia, tornando-se um nome importante da arte de vanguarda nos Estados Unidos, amiga dos autores Beats e causando polêmicas com filmes, esculturas e pinturas.

Sheff refuta a ideia de que Ono “separou os Beatles” com argumentos inquestionáveis: a banda já estava em fase terminal quando Lennon e Ono se casaram, em 1969, e Lennon já manifestara diversas vezes sua vontade de partir em carreira solo.

Talvez a presença de Ono tenha acelerado o fim, mas certamente não o causou. E foi ela que incentivou Lennon a abraçar o ativismo político que marcou os dez últimos anos de vida do beatle.

“Ela é a professora e eu sou o aluno”, disse Lennon a Sheff. “Eu sou o famoso, o que deveria saber tudo, mas ela é minha mestra. Ela me ensinou tudo que sei”.

Fonte: André Barcinski/Folha de São Paulo 

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