Debate presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro no estúdio da Band –
O primeiro debate entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) nesta eleição frustrou quem esperava um nocaute do adversário. Bem treinados para os cortes nas redes sociais, os dois rivais trocaram acusações em tom acalorado, mas produziram pouca luz.
Ficaram sem resposta várias questões sobre como o Brasil será governado a partir de janeiro de 2027. Também foram levantados questionamentos éticos dos dois lados, com prejuízo maior para Flávio, mas sem esclarecimentos conclusivos.
Lula começou em desvantagem no confronto direto, favorecido pelo formato do debate da Band. Durante cerca de cinco minutos, ficou sob pressão do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que concentrou suas críticas na entrevista da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, filho do presidente.
O escândalo do INSS, embora tenha raízes no governo de Jair Bolsonaro, está associado à imagem de Lula. Com o debate em ritmo de “Telecatch” — os programas de luta livre e encenação que marcaram a televisão brasileira entre as décadas de 1960 e 1980 —, o presidente pareceu nas cordas.
Lula se recuperou ao levantar questões sobre o caso Master, que envolve diretamente Flávio, investigado no caso. Seu melhor momento veio quando respondeu à afirmação de que presos votariam nele: disse que queria o voto de todos, inclusive o de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado.
O presidente também escorregou ao chamar o rival de “malandro carioca”, especialmente por se tratar do terceiro maior colégio eleitoral do país, onde Lula teve desempenho ruim no primeiro turno. Flávio, por sua vez, explorou o contraste de idade e chegou perto do etarismo ao tentar indicar ao presidente para qual câmera olhar.
O senador mostrou que o treinamento para entrevistas funciona. Depois de passar mal em seu primeiro debate, na eleição municipal do Rio em 2016, estava preparado para evitar respostas e provocar o adversário.
Na linguagem corporal, Flávio exagerou no uso de um recurso permitido pelo formato: posicionou-se atrás de Lula enquanto o presidente falava, gesticulando e fazendo expressões de reprovação. Para as redes sociais, a cena foi ideal.
Lula apostou na gravata com as cores da bandeira brasileira para se contrapor à ligação do clã Bolsonaro com Donald Trump. Também demonstrou a combatividade de quem participa de debates em eleições majoritárias desde 1982.
Aliados que temiam um momento à la Joe Biden podem ficar mais tranquilos. O ex-presidente americano desistiu de buscar a reeleição após o desempenho ruim em um debate com Trump, em 2024, mas Lula não teve uma atuação semelhante.
O tema da soberania foi desfavorável a Flávio. Integrante de uma família ligada à direita populista internacional e ao governo Trump, ele não convenceu ao ser questionado sobre sua relação com o presidente americano.
Nos momentos mais calmos, quando os dois candidatos falavam em tom de palanque, a temperatura baixava, mas a geração de respostas continuava parada. Lula não explicou como pretende reduzir o déficit das contas públicas. Flávio falou sobre a criação de um Ministério da Prosperidade, nome que parece inspirado em denominações neopentecostais e destinado a acomodar alguém como Pablo Marçal.
O debate não indicou que os eleitores indecisos tenham formado uma posição definitiva naquela noite. Em uma eleição que pode ser decidida no “olho mecânico”, os dois candidatos podem comemorar a ausência de um deslize fatal no primeiro encontro, mas pouco além disso. O eleitor interessado terá de esperar o debate da próxima sexta-feira (23), na Globo.
















