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Originais de ‘A Hora da Estrela’, de Clarice Lispector, aparecem no RJ

Datiloscrito original do romance ‘A Hora da Estrela’, de Clarice Lispector, de posse da livraria Letra Viva – Arquivo pessoal

Um datiloscrito original de “A Hora da Estrela”, um dos principais romances de Clarice Lispector, foi descoberto no Rio de Janeiro. Os papéis estavam no arquivo particular de Eduardo Portella, escritor que foi membro da Academia Brasileira de Letras e morreu em 2017. Seu acervo foi adquirido pela livraria carioca Letra Viva por intermédio de sua viúva, Célia.

Três imagens lado a lado mostram: capa vermelha manuscrita com título da obra; página interna com texto digitado e manchas; capa da 1ª edição do livro com título em azul e vermelho e ilustração urbana.

“A Hora da Estrela” foi o último livro publicado em vida por Clarice, dois meses antes de sua morte em dezembro de 1977. A autora enviou o original para que Portella, crítico respeitado e seu amigo, escrevesse o prefácio da primeira edição. Ele o fez, mas nunca devolveu os originais, que manteve guardados até o ressurgimento de agora.

Um colega de Portella na ABL com conhecimento do caso diz que esse é um comportamento bastante plausível do autor, que acumulava muita coisa em sua biblioteca sem valorizar cada item em sua medida exata —um acervo de grande leitor, não de bibliófilo.

O documento que vem à luz agora é um conjunto de 62 páginas datilografadas, com alterações feitas à mão por Clarice, incluindo correções, cortes nas dedicatórias e mudanças nos 13 títulos alternativos contidos na abertura do livro. “O piquenique dos mendigos”, por exemplo, foi riscado para dar lugar a “Ela não sabe gritar”.

Página do datiloscrito recém-encontrado de ‘A Hora da Estrela’, de Clarice Lispector – Arquivo pessoal.

O datiloscrito foi oferecido pelo dono da Letra Viva, Luiz Barreto, ao Instituto Moreira Salles, responsável por guardar o acervo da autora de “Perto do Coração Selvagem”. Foi submetido a um parecer de Teresa Montero, uma das principais especialistas na obra de Clarice, e teve sua legitimidade reconhecida. Mas a decisão do IMS foi por não comprar.

O instituto já tem em seu arquivo uma outra versão datilografada do romance protagonizado por Macabéa. Segundo Barreto, é uma versão incompleta, sem a totalidade das páginas e menos próxima do livro final que acabou vindo ao mundo. O dono da Letra Viva pretende organizar um leilão para vender o original, com lance inicial de R$ 375 mil.

O lote vai incluir também dez livros autografados por Clarice para Portella, recibos assinados pela autora, 50 números da revista Manchete com a série de entrevistas “Diálogos Possíveis com Clarice” e diversos manuscritos de Portella sobre a amiga escritora.

Segundo Rachel Valença, pesquisadora que coordena a área de literatura do IMS e tem décadas de carreira na Casa de Rui Barbosa, será “uma barbaridade” se esses originais forem adquiridos por uma instituição estrangeira, indo para longe dos pesquisadores mais interessados na obra de Clarice.

“Temos que ter compromisso com a permanência desse material no país”, afirma ela. “Lá fora, ela não vai ter o tratamento que teria aqui, de estrela.”

Fonte: Walter Porto/ Folha de São Paulo   

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