O poeta, teólogo e cardeal José Tolentino de Mendonça –
Um poeta e cardeal chega à Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. José Tolentino de Mendonça, 60 anos, acumula as duas vocações, a literária e a religiosa: ao mesmo tempo em que é um dos principais autores de versos portugueses em atividade, é também uma liderança importante na estratégia global do Vaticano de diálogo com a sociedade.
Cardeal vestido com traje clerical preto e vermelho, usando cruz pendurada no pescoço, caminha em rua com pessoas ao fundo e portas metálicas fechadas.
Não à toa, em 2025, às vésperas do conclave para decidir a sucessão do papa Francisco, o nome de Tolentino figurava nas listas de cardeais que poderiam ser eleitos.
Tinha sido o próprio Francisco que, depois de nomeá-lo cardeal, também transformou José Tolentino em prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, cargo que ainda ocupa. Ele é uma espécie de ministro da Cultura da Santa Sé, responsável por construir as pontes entre a Igreja e o mundo das artes —não à toa, desde que assumiu, tem garantido que haja um pavilhão do Vaticano na Bienal de Veneza.
A conversa entre Roma e artistas tem história, mas também é marcada por conflitos duros. Mas, como intelectual atento às principais questões contemporâneas, o poeta parece navegar com conforto a complexidade dessa conversa. Diz que, desde o segundo Concílio do Vaticano, todos os papas mantiveram uma relação saudável com os artistas. Ele próprio é amigo de Maurizio Cattelan, artista italiano que, no fim dos anos 1990, causou a ira de católicos com uma escultura que mostrava o papa João Paulo 2º atingido por um meteoro.
Mas, como artista, a literatura é a sua casa. Nascido na Ilha da Madeira, ele publica agora no Brasil “Os Enigmas Singulares”, pelo Círculo de Poemas, uma antologia de sua obra até aqui. Uma poesia que, conforme alguns críticos têm apontado, dá atenção especial ao corpo. E, se alguém acha que um religioso deveria se ocupar da alma, ele explica: nossos sentidos são uma porta de acesso ao mistério, estranho seria se não quisesse saber do corpo.
Nesta entrevista à Folha, ele relembra sua trajetória como poeta, explica como tenta construir o diálogo entre a Igreja e as artes —e como trata as dificuldades dessa conversa. Tolentino, que também foi o responsável pela Biblioteca do Vaticano, discute ainda se a IA realiza a fantasia humana de uma biblioteca infinita, discute se as máquinas um dia vão escrever poemas e defende as artes como parte da jornada do homem em sua busca pelo mistério.
Como o senhor se tornou poeta?
Há um grande debate sobre como a poesia nasceu. E há quem ligue a poesia a uma dimensão religiosa; quem a ligue à experiência da ausência e do luto, para ser uma ferramenta para enfrentar a morte; quem a ligue à infância, onde nosso olhar tem uma limpidez capaz de ver as coisas em seu esplendor; e há quem a ligue à música, porque porque ela é música antes da música.
Todo esse debate nos diz que a poesia está ligada àquele momento em que o ser humano ganhou consciência de quem era. Como quando, na Gruta de Lascaux, os seres humanos, molhando as mãos no sangue dos animais, as encostaram contra as paredes da caverna. Não para deixar um vestígio, mas para pensar sua condição de deixadores de vestígios.
Somos um vestígio de quê? Ora, essa ligação da poesia às cosmogonias, ao religioso, também é replicável no discurso de cada poeta. Quando me senti poeta? Quando o escrever não era mais distante do ser. Quando escrever não era mais uma forma de comunicação, mas de respiração. No fundo, aquilo de Rainer Maria Rilke explica nas “Cartas a um Jovem Poeta”: nós nos tornamos poetas quando acordamos um dia e dizemos: “Se eu não escrever, morro”. Quando a poesia se torna uma questão de vida, tu és poeta.
O papa Francisco, de quem o senhor era próximo, publicou uma carta antes de morrer em que defendia que a literatura fazia parte de uma busca espiritual. Sua vocação religiosa caminha em paralelo com a vocação literária?
Sem a poesia e sem a literatura, nós saberíamos muito menos de quem somos. O Fernando Pessoa dizia: “A alma humana é um abismo”. E é. Mas não conheceríamos os outros como os conhecemos sem a literatura, porque ela nos permite uma prática de empatia.
Lembro de uma conversa com a Nélida Piñon, ela dizia: “Sou escritora porque tenho uma curiosidade pelos outros, mas uma curiosidade verdadeira, por exemplo, por pensar como a pessoa se comporta na solidão, como caminha descalça dentro da sua casa, como abre um livro, como cuida de uma planta, como administra o seu próprio tempo, como chora, ama, pensa, reza”.
Essa curiosidade é, no fundo, um desejo de ser, porque, nessa hospitalidade da vida dos outros, um escritor ou um poeta é capaz de criar o espelho onde todos nos vemos. Dizer que a literatura é importante do ponto de vista cultural é uma coisa ainda um pouco escolar. A literatura, como dizia o papa Francisco, é importante para viver, para nos entendermos, para perceber que não somos apenas um animal acossado na luta pela sobrevivência, mas somos herdeiros de um chamamento muito mais alto.
Muitos críticos têm apontado a importância do corpo na sua obra poética. Seria de esperar que um religioso escrevesse mais sobre a alma?
Interesso-me pelo corpo, porque sou corpo. E porque sou cristão. O princípio da revelação cristã é o mistério da encarnação, é o verbo que se faz carne. Seria estranho um homem religioso que não se interessasse pela encarnação, isto é, pelo modo como a vida se torna existência. No centro, por exemplo, da Eucaristia, Jesus diz: “Isto é o meu corpo.”
Então, eu me interesso pelo corpo porque me interesso muito pela alma. Quem se interessa pela dimensão do invisível tem de se interessar de uma forma constante e fiel pelo visível, porque o visível é o caminho que nos abre. Na minha prática teológica, tenho um livro chamado “A Mística dos Sentidos”, que diz exatamente isso: os nossos sentidos são acessos ao mistério. Temos corpo habitado pelo sopro, habitado pelo mistério. E é, no fundo, esse mistério total que nós chamamos vida.
Roma sempre foi uma promotora das artes, mas também tem uma relação de muitos conflitos com artistas seculares. Lembro Maurizio Catelan, que fez a escultura do papa João Paulo 2º atingido por um meteoro. Como equacionar esses embates hoje?
Do segundo Concílio do Vaticano para cá, todos os papas mantiveram uma relação com os artistas. O papa Paulo 6º dizia que a Igreja precisa do ministério ou do magistério dos artistas, porque os artistas são transportadores de espírito, de visão.
Um grande teólogo dizia: mais importante do que os teólogos no século 20 foram os poetas, foram os artistas, os romancistas, porque eles têm uma capacidade de tradução do mistério, que não é a capacidade da explicação, da glosa, do comentário. Mas é uma espécie de irrupção, quase como se fossem canais de uma epifania. E isso eu penso que os papas entenderam muito bem.
O diálogo da Igreja hoje com o mundo da cultura é amigável. É uma conversa que aceita não ser uma fusão, mas diálogo também na diferença. Eu penso que a Igreja colhe muito das artes contemporâneas.
A Igreja oferece elementos importantes à arte contemporânea, com uma profundidade de olhar que não é apenas o do presente. E oferece também profecia, porque a Igreja ajuda, como dizia o Papa Bento 16, a arte contemporânea a confrontar-se com as questões últimas, que são as questões de sentido da vida, que no fundo são a questão de Deus.
É claro que não é sempre um diálogo fácil. Eu me considero amigo de Maurizio Cattelan, A sua obra não é uma obra fácil, e eu não tenho de reconhecer ou legitimar aquela obra. Gosto de pensar em um pequeno poema de Adília Lopes em que ela diz que o iconoclasta reconstrói o ícone. Penso nesse ensinamento. Aquilo que parece iconoclasta às vezes também purifica e ajuda a afirmar a verdade do gesto religioso.
O Eclesiastes, composto há mais de 2.000 anos, já indagava sobre o excesso de conhecimento ou informação. Como a inteligência artificial atualiza esse debate?
O homem é um assombro na sua potencialidade criativa, de fato, é imagem e semelhança do criador. Mas, ao mesmo tempo, precisamos nos reconciliar com o limite e perceber que ele não é um obstáculo à maturação da nossa humanidade e à nossa realização, mas condição da nossa realização e do nosso encontro com a plenitude. Sem a compreensão desse limite, o homem se choca com o absurdo.
Precisamos de engenheiros, mas também de mestres espirituais e poetas que ajudem a construir uma síntese harmoniosa do humano. De outra maneira, nós cairemos na tentação a que o Vale do Silício chega, a procura que o pós-humanismo faz de uma imortalidade que, no final, é artificial e impossível. O corpo envelhece, o nosso andar se torna mais lento, sentimos que a história passa por nós, que nós somos também a sombra de um momento que passa. E tomar consciência dessa fragilidade acaba por ser a nossa força.
A encíclica Magnifica Humanitas [do papa Leão 14] é um chamamento muito importante. Se entregarmos a vida nas mãos da tecnologia, nós podemos saber muitas coisas e, como diz o Eclesiastes, isso pode ser vaidade, pode ser correr atrás do vento. Porque vivemos tanto e possuímos o mundo, mas acabamos por perder a nossa alma, aquilo que o homem tem de singular e único. Para usar a fala da Clarice Lispector, esta consciência de que somos uma pergunta que não pode terminar aqui.

Capa de ‘Os Enigmas Singulares’, antologia poética de José Tolentino de Mendonça – Divulgação
A literatura está cheia de histórias de homens tentando criar vida e consciência. A corrida pela inteligência artificial mobiliza essa mesma fantasia?
O papa explica bem como, por trás deste domínio tecnológico, existem imaginários culturais. E são imaginários prometeicos, imaginários de uma onipotência que, no fim, se volta contra o próprio ser humano. Porque o ser humano é potência e impotência.
Todas as coisas mais preciosas que inventamos foi para entrar em relação [com os outros], foi para construir comunidade. Sem isso, o homem fica isolado numa ilusão que não realiza. Com a IA, delega-se o caminho humano a uma máquina. Mas a verdade é que quando nós delegamos a tarefa do ser humano nas mãos de uma máquina, nós ficamos a meio do caminho.
O sr. foi o responsável por anos pela biblioteca do Vaticano. A IA concretiza o sonho da humanidade de ter a biblioteca infinita de que Jorge Luís Borges e outros falaram?
O livro é uma tecnologia. Uma biblioteca é um laboratório tecnológico. Só que uma biblioteca tem a lentidão e o tempo da busca, que é muito humano. Já os laboratórios de IA estão sempre a dizer: “Não precisa mais fazer, pensar, investigar, ler, decorar; não precisa mais conhecer pela primeira vez”.
Uma biblioteca é um mundo aberto, geradora de outras bibliotecas, porque, depois de uma, escrevem-se outros livros. A IA nos dá aquilo que já temos. E a verdadeira inovação não é apenas a cópia, mas esse elemento de originalidade que cada ser humano traz. No fundo, só a poesia é capaz de dizer e mostrar o único.
Uma máquina nunca será capaz de fazer um poema então?
A máquina, por si só, nunca será capaz de escrever um poema do mesmo modo que um poeta o escreve. As máquinas são grandes dispositivos linguísticos e certamente o que fazem é admirável. É deslumbrante, o que elas fazem com as línguas, com a linguagem. Talvez seja até o aspecto mais interessante. É mais interessante o que elas fazem com a linguagem do que elas fazem com a guerra, por exemplo. E são também atrozes dispositivos bélicos. Mas o que fazem com a linguagem é fascinante, mas nunca farão aquilo que fez o Orides Fontela.
Fonte: Folha de São Paulo
















