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‘Um Estranho no Ninho’, há 50 anos, pensa o poder da comunicação

O ator Jack Nicholson em cena do filme “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman – Divulgação. 

Por:Thiago Campolina

Não é para menos, pois o longa do diretor Miloš Forman segue digno de sua fama. Ambientado em um hospital psiquiátrico, acompanhamos um grupo com diversos transtornos mentais. Todos seguiam uma rotina regrada imposta pela rígida enfermeira Mildred Ratched, a qual rendeu o Oscar a Louise Fletcher.

Até que surge McMurphy —ou Mac—, interpretado por um Jack Nicholson inesquecível. Esnobado pela Academia em quatro oportunidades anteriores, o ator não deixou o prêmio escapar com uma de suas melhores performances. Ele orbita entre o irônico e o violento, o divertido e o desagradável, tudo com parcimônia cênica constante.

Buscando a vida mansa, Mac se faz de louco para escapar da prisão e cumprir a pena no hospital. O que ele pensava que seria um paraíso transforma-se em inferno com Ratched, que apresenta um penteado bufante que até lembra os chifres do capeta.

Desde seu lançamento, já se falou da relação do filme com o autoritarismo, encabeçado aqui pela figura da enfermeira, enquanto Mac seria uma espécie de mártir de uma revolução contra ela. A oposição entre a liberdade festiva e orgiástica de Mac —com sua jaqueta de couro e seu jeito falastrão— e a opressão de Ratched —com seu avental sempre branco e sua manu militari— é clara e inescapável.

Mas há outro ângulo para se discutir a obra —o da comunicação. Há várias cenas em que os internos se reúnem, sob a batuta de Ratched, em uma terapia em grupo, na qual cada um fala sobre seus problemas e os outros são instigados a reagir. São situações absurdas, em que a tensão vai aumentando ao longo da tempo. Claramente, as conversas são inúteis e só servem para gerar constrangimento.

Revendo o filme, me lembrei de Gregory Bateson, pesquisador da comunicação. Ele desenvolveu o conceito do duplo vínculo. Em suma, trata-se de uma situação de conflito comunicacional. De um lado, a fala do interlocutor é positiva, enquanto, do outro, seus gestos são negativos. Isso cria um dilema que pode levar a confusão, tristeza, raiva ou, como última consequência, neurose.

Na obra, a conduta de Ratched se configura dessa forma. Ela diz com embasamento médico, até carinho, talvez, o que seus pacientes devem fazer. O fundo disso, com seu olhar e seus gestos firmes, não demonstra gentileza, mas impõe medo. Se as coisas não saem como ela quer, há efeitos danosos.

Bateson acreditava que, quando o duplo vínculo se repetia na infância, poderia levar à esquizofrenia. Seus discípulos vão além e afirmam que esse cenário é a tônica da comunicação em todas as relações. Para eles, qualquer relacionamento pode ser fonte de patologias, tudo devido a um problema de comunicação.

O surgimento de Mac faz tudo ruir, pois enfim há alguém, diferente da enfermeira e sua equipe, mas em uma posição igualmente superior — já que ele é diferente dos outros internos— , que não cria situações conflitantes. Mac é coerente entre o que pensa e diz, e o que de fato faz.

O Chefe, papel de Will Sampson, indígena surdo, ao menos em tese, é o único que se salva nessa história. Ao renegar, em sã consciência, o uso e os efeitos da linguagem em si, ele se salva. Parece ser o único sereno ao longo do filme.

A pia jogada contra a janela na cena final pode ser considerada um totem da própria linguagem opressora e confusa, agora sendo defenestrada em busca de maior entendimento.

Cinco décadas depois, o que “Um Estranho no Ninho” faz é nos instigar a questionar a natureza daquilo que se considera loucura. Seria tudo uma questão de linguagem? Se o mundo não tentar impor sua visão aos “loucos”, mas apenas compreendê-los, eles continuariam loucos?

Fonte: Folha de São Paulo

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