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Diretor Paul Schrader exibe em Veneza filme áspero que trata de repressão sexual

Os atores Jack Huston e Sofia Boutella em foto do filme ‘The Basics Of Philosophy’, de Paul Schrader – Repdrodução.

Os movimentos LGBTQIA+ tiveram tantas conquistas nos últimos anos que, muitas vezes, as pessoas tendem a imaginar que assumir a homossexualidade já não é mais um tabu. Mas ainda hoje, mesmo em lares com gente liberal e esclarecida, existe grande resistência, e a situação é ainda pior no caso em que a própria pessoa não consegue se aceitar.

“The Basics of Philosophy”, do diretor veterano Paul Schrader, mostra que as coisas não são ainda tão simples e que, para os gays enrustidos, as constantes tentativas de levar uma vida na “normalidade” costumam configurar um simples autoengano.

Exibido nesta sexta numa mostra fora da competição principal do Festival de Veneza, na Itália, o filme acompanha um professor universitário de filosofia, especialista em Espinoza, que tem um namoro morno com uma colega de trabalho, mãe de um adolescente. Alguma coisa vai mal no romance, mas ainda assim o casal insiste, com planos até para se casar.

Interpretado por Jack Huston, neto do diretor John Huston, o professor propõe aos alunos uma questão que ele próprio rumina há anos —o ser humano é capaz de mudar? Ou tudo acaba, cedo ou tarde, se resumindo ao essencial programado pela natureza —e o uso da razão para guiar nossas atitudes, no fim das contas, de nada serve?

Talvez isso o obceque porque ele queira mudar sua própria sexualidade. Mas há algo mais. No passado, o professor cometeu abuso sexual com um adolescente, filho de um funcionário de seu pai, algo que causa culpa e o martiriza diariamente. Seu pai compensou muito bem o jovem assediado, pagando os seus estudos, mas há marcas que o dinheiro não consegue apagar.

Schrader faz um daqueles filmes de orçamento limitado, com ares de produção B, que de vez em quando ele gosta de dirigir. Existe austeridade na composição geral, mas também há sempre traços de desmesura, certa vulgaridade e uma propensão à caricatura em certas situações, mesmo quando o tema abordado é sério, grave, até profundo. Parece –e é– uma inadequação entre forma e conteúdo, mas Schrader a usa de maneira ousada, por vezes bem inteligente, injetando no filme ares de “baixa cultura” que evitam que o longa soe por demais solene. Ou mesmo que se leve muito a sério.

Afinal, há muitas coisas ali em questão, e não há de ser Schrader quem vai apontar soluções definitivas. No mundo, tudo é impreciso demais para nos fecharmos em certezas, filosóficas ou estéticas, o diretor nos diz.

A obra não usa o protagonista para discutir se é um monstro ou se merece o perdão da sociedade, e quem optar por essa chave de leitura há de rejeitar, talvez até odiar, o que Schrader apresenta. A questão é que o personagem, independentemente do que tenha feito no passado, vive uma grande tensão. Busca se redimir por meio do raciocínio, pela “filosofia”, e talvez até consiga certo alívio.

Não é questão de julgar o personagem, mas de entender o que o abala mentalmente. Mas, na cena final, no altar, Schrader talvez mostre o que ele de fato pensa sobre o tema –num único plano, dá seu palpite sobre o que pode vir por aí. E sobre a limitação da capacidade humana de mudar, afinal. Este filme desconfortável, áspero em suas ambiguidades, é mais um trabalho de relevo do cineasta, ainda hoje lembrado pelo roteiro de “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, que participa do longa como produtor-executivo.

Na competição, o destaque de sexta foi para “A Place to Heal”, do francês Cédric Kahn, em que o diretor se debruça sobre o sistema público de tratamento psiquiátrico para jovens entre 15 e 18 anos na França. Vemos a rotina de vários desses adolescentes, que estão ali por motivos variados –embora seja comum na história de vida de cada um ter vindo de lares disfuncionais, muitas vezes com abuso sexual na infância.

Entre os personagens, vemos uma garota marcada por um trauma, que hoje luta contra anorexia e bulimia. Outra é negra, e além dos problemas na sociedade relativos ao racismo, também enfrenta hostilidade dentro de casa desde que se assumiu lésbica. A mais nova interna é uma garota saidinha, que gosta de se meter em confusão, sobretudo em relacionamentos amorosos, mas que tem dificuldades em reconhecer seus problemas –ao menos até a próxima (das várias) tentativa de suicídio. E por aí vai.

São personagens cativantes, e Kahn encena tudo em chave realista, de modo que o seu filme tenha sempre um quê de documentário –o longa é fruto de extensivas pesquisas no sistema psiquiátrico real francês. A ideia é mostrar o quanto o auxílio médico pode ser importante para adolescentes, sobretudo os de baixa renda e que vivem em meio familiar inóspito. Mas não apenas isso —a relação com outras pessoas que passam por problemas semelhantes tende a fortalecer cada interno, ajudando a encarar suas dificuldades.

O filme tem inevitavelmente algo de “Um Estranho no Ninho”, mas, diferentemente do longa de Milos Forman de 1975, a estrutura opressora do internato não é uma maneira simbólica de aludir ao mundo dos “sãos” do lado de fora. Kahn é bem mais literal em sua proposta, e o filme, apesar do vigor dos personagens e da competência da encenação, não consegue ir além de onde o projeto permitia. É uma marcha em terreno relativamente seguro –um filme eficaz, importante, mas sem surpresas.

Fonte: Bruno Ghetti/Folha de São Paulo

 

 

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