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Transformei minha vida em ficção, diz Milton Hatoum ao tomar posse na ABL

O escritor Milton Hatoum durante sua posse na cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro – Zo Guimaraes/Folhapress.

O escritor Milton Hatoum, de 73 anos, tomou posse nesta sexta-feira (24) na Academia Brasileira de Letras. É o primeiro imortal nascido no Amazonas a assumir uma cadeira.

Homem de cabelos brancos segura diploma com texto visível, vestindo traje preto com bordados dourados. Mulher ao lado também usa traje semelhante. Pessoas ao fundo aplaudem em ambiente interno com mesa e microfones.

O escritor Milton Hatoum durante sua posse na cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro – Zo Guimaraes/Folhapress
“Não estava no meu horizonte ser imortal”, diz Hatoum em entrevista antes da posse. “Escrevi meus livros com muita honestidade. Não fiz coisas que não sentia profundamente, que não faziam parte da minha vida. E eu transformei minha vida em ficção.”

Hatoum ocupa a cadeira número seis, que era do jornalista Cícero Sandroni, morto em junho de 2025. O assento já foi ocupado por Raymundo Faoro e Barbosa Lima Sobrinho. O poeta Casimiro de Abreu é o patrono.

O autor manauara foi eleito na primeira tentativa de candidatura. À época, disse que foi convencido após conversas com acadêmicos como Ana Maria Machado —ela fez o discurso de apresentação de Hatoum na cerimônia.

Hatoum riu quando Machado contou sobre uma viagem a uma feira literária na Bahia. Sozinha com o escritor numa van, na volta do evento, ela plantou a semente para que ele considerasse a hipótese de se candidatar à Academia.

“Ouvindo minha sugestão, o ar de espanto dele foi autêntico e inesquecível. Evidentemente, a hipótese não lhe ocorrera jamais. Ficou sem ter o que dizer, balbuciando desculpas. Algumas sem pé nem cabeça, aliás… Mas prometeu pensar no assunto. Pois não é que ele levou dez anos pensando?”.

“Fiquei de pensar, pensei muito e aqui estou. Quero dar minha modesta contribuição”, afirmou o autor.

A casa de Milton Hatoum

Machado mencionou a serenidade com que Hatoum fala, age e trabalha. Uma tranquilidade, para ela, contrastante com a velocidade da comunicação contemporânea. Lembrou que Hatoum ainda escreve suas histórias à mão.

“O desafio para quem escreve é deixar um pouco de lado o celular”, disse o novo imortal. “A literatura pede e exige tempo e concentração”.

“Eu mesmo não entendo essa lentidão que, no entanto, não me exaspera. Talvez ela guarde relação com o ritmo da Amazônia”, afirmou o escritor durante o discurso. Ele recebeu o diploma das mãos de Lilia Schwarcz, a espada de Arnaldo Niskier e o colar de Rosiska Darcy de Oliveira.

Hatoum mencionou Graciliano Ramos em seu discurso de posse, um de seus autores de referência. Falou sobre as desigualdades do país, consequência dos séculos de escravidão, e mencionou Fabiano, personagem de “Vidas Secas”. “Fabiano quer pensar, mas não sabe pensar”, diz. “Esse é o impasse de milhões de brasileiros até hoje: a angustiante ausência de articulação de pensamento”.

Hatoum nasceu em Manaus em 1952 e morou parte da adolescência em Brasília. Mudou-se para São Paulo na década de 1970, onde se formou em arquitetura. A formação, diz Hatoum, tem influência no seu trabalho. Ele também morou em Madri e Paris enquanto estudava literatura.

Tudo a Ler

Seu primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, de 1989, foi vencedor do prêmio Jabuti. Repetiu o feito com o romance “Dois Irmãos”, publicado em 2000, e “Cinzas do Norte”, em 2005.

A trilogia “O Lugar Mais Sombrio” foi concluída com o lançamento, em novembro do ano passado, de “Dança de Enganos”. Antes, Hatoum publicou os romances “A Noite da Espera” e “Pontos de Fuga”.

Sem soar panfletária, a obra do autor aborda imigração, ditadura e emancipação da mulher. A memória e as cidades, especialmente a Manaus de sua infância, são assuntos caros.

“Fala-se na crise do romance. Ora, o romance como gênero literário já nasceu em crise”, afirmou no discurso. “Aliás, crise e crítica têm o mesmo étimo, e o romance sobreviveu a ambos. Enquanto houver vidas neste mundo em chamas, haverá histórias a serem narradas”.

Fonte: Yuri Eiras/Folhas

 

 

 

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