Artista faz sua estreia musical com ‘Álbum ‘Vermelho’. Mineira diz que se reconectou com suas origens.
Julia Guedes passou anos tentando responder a uma pergunta que, para ela, parecia inevitável: como construir uma identidade própria quando a música já faz parte do sobrenome? Neta de Beto Guedes, um dos nomes ligados ao Clube da Esquina, a cantora e compositora mineira lança seu primeiro álbum, “Vermelho”, depois de um processo que começou como tentativa de se afastar do legado familiar e que terminou como uma forma de incorporá-lo.
Mineira, ela decidiu gravar o disco no Rio de Janeiro. A mudança começou como uma aventura profissional. Mas, hoje, ela entende o deslocamento de Belo Horizonte para o Rio como um gesto de emancipação.
Longe de sua cidade e de um ambiente musical em que sua família ocupa lugar central, Julia passou a buscar outras referências, pessoas e cenários. “Eu fui na promessa de um produtor de lá de que a gente gravaria junto o álbum, eu cheguei lá, ele sumiu, me deu um ghosting”, conta. O contratempo acabou contribuindo para que ela encontrasse outro caminho para o disco.
Mulher de cabelos longos e escuros veste vestido branco longo e solto, segurando uma rosa vermelha na mão direita. Fundo mostra céu azul com nuvens brancas.
A distância também fez com que a cantora olhasse de outra maneira para a própria origem. “Eu fui para o Rio de Janeiro para eu começar a perceber meu sotaque”, diz. A experiência de ser identificada como mineira longe de casa produziu nela uma espécie de reconexão.
O resultado dessa negociação aparece em “Álbum Vermelho”, que reúne referências do Clube da Esquina e de artistas contemporâneos. “Eu sempre penso quando perguntam que gênero de música eu faço, eu falo que eu faço música mineira”, diz. No disco, Beto Guedes divide espaço com Wagner Tiso, também parte do Clube, e artistas da nova geração, como Dora Morelenbaum, criando um diálogo entre diferentes momentos da música brasileira.
Júlia cresceu sabendo que Beto era músico, mas muitos de seus familiares, tanto por parte de mãe, como de pai, também eram —um avô músico era natural na dinâmica familiar. Foi só na adolescência que ela entendeu a dimensão de sua obra e a importância do Clube da Esquina. Durante a pandemia, mergulhou na discografia do movimento e nas histórias de seus integrantes.
Foi nesse processo que, segundo ela, também encontrou a própria voz. “Meu vô, ele é meu vô amado, mas ele também é o meu ídolo da vida, meu maior ídolo de todos”, afirma.
O disco termina com uma homenagem ao avô, completando uma espécie de ciclo familiar. A cantora repete um hábito de Beto, o de encerrar seus discos com uma composição de Godofredo Guedes, bisavô de Julia, e encerra com “A Página do Relâmpago Elétrico”, faixa que abre o primeiro disco de Beto.
As canções seguem uma trajetória que não é exatamente linear, mas acompanha uma transformação. O álbum começa com um rock mais enérgico, passa por reflexões sobre medo, sonhos, sexualidade e o lugar da mulher e termina com uma reconciliação. “Eu vou fazendo as pazes com a minha hereditariedade”, resume.
Outra escolha do disco está na maneira como as músicas foram gravadas. Júlia optou por privilegiar os primeiros takes, sem o excesso de correções e edições que poderiam tornar as faixas mais próximas de uma sonoridade considerada perfeita. A decisão nasceu de uma limitação prática: o álbum foi viabilizado por financiamento coletivo e o orçamento permitia poucas horas de estúdio.
“Eu acredito muito na limitação como ferramenta artística”, diz. A cantora afirma que queria preservar aquilo que poderia ser considerado imperfeito na execução dos músicos. “Vamos defender a manualidade das coisas, vamos defender a preciosidade e o que muita gente e máquinas considerariam como erro.” Para ela, a escolha também é uma reação à padronização da música produzida em ambientes cada vez mais tecnológicos.
A mesma lógica chegou à parte visual. Formada em design, Júlia participou da identidade gráfica do álbum, da direção criativa de fotos e clipes e do projeto visual do LP, que também integra seu trabalho de conclusão de curso.
A artista, porém, faz questão de colocar um limite nessa defesa da precariedade. Ela reconhece que a falta de dinheiro não deve ser romantizada e que parte de sua trajetória só foi possível por condições que outras pessoas não tiveram. “Eu tenho plena consciência que eu já parto de um lugar privilegiado, de um sobrenome”, afirma.
É também nesse ponto que Júlia encara o rótulo de “nepo baby”. Em vez de rejeitar a crítica, ela reconhece que o nome Guedes abre portas.
Depois de uma década compondo e quatro anos dedicada à construção do disco, Júlia agora deixa “Álbum Vermelho” escapar de suas mãos. O disco, diz ela, já não pertence somente ao artista. “Cada pessoa vai ouvir de acordo com a bagagem que tem, vai interpretar e colocar em lugares que não estão sob o meu controle.” O lançamento, por isso, é uma estreia. “Para mim parece que é um fechamento de ciclo, mas não, na verdade é o começo.”
















