Aos 56 anos, José Maria Paranhos transforma a estrada em uma forma de conhecer o Brasil.
A história de José Maria Paranhos com a estrada começou em 1992, quando ele e o irmão, Diego Henrique, tiveram a ideia de percorrer de bicicleta os 27 estados brasileiros. O projeto, porém, foi interrompido naquele mesmo ano com a morte de Diego, em dezembro. O sonho permaneceu guardado por Paranhos e, anos depois, ganhou novamente as estradas. A bicicleta passou a ser o meio para conhecer diferentes regiões, cidades e comunidades do país.

A estrada como território de descoberta.
A primeira grande jornada terminou em 2017, quando Paranhos retornou ao Rio Grande do Sul. Dois anos depois, decidiu retomar o projeto, desta vez com uma proposta diferente: deixar a bicicleta e percorrer o Brasil a pé, como um mochileiro. A pandemia interrompeu os planos e adiou novamente a viagem. Em 2023, ele voltou para a estrada. Desde então, segue caminhando por diferentes regiões, registrando em fotografias e vídeos os lugares por onde passa.
A nova travessia tem como objetivo chegar às capitais brasileiras e mostrar aspectos da arte, da cultura e do patrimônio de cada localidade. Para Paranhos, a viagem também é uma maneira de conhecer o país a partir das pessoas e das histórias encontradas pelo caminho. Ele mantém contato com instituições e autoridades locais para conseguir apoio durante o percurso. Em Lavras, por exemplo, contou com o apoio da Secretaria Municipal de Esportes, Turismo e Eventos.

Quantos Brasis cabem em uma caminhada? Paranhos tenta descobrir.
Aos 56 anos, a caminhada continua sendo um desafio físico. Antes de chegar a Lavras, Paranhos percorreu cerca de 60 quilômetros pelo Circuito das Águas. No momento, enfrenta um problema no pé direito, provocado por fascite plantar. Mesmo com as limitações, mantém o percurso e calcula já ter passado por mais de 2.750 municípios brasileiros ao longo de suas viagens.
A estrada também proporcionou experiências muito diferentes. No Rio de Janeiro, Paranhos conta que foi abordado por um morador do Morro do Borel e teve uma arma apontada para a cabeça. No sertão do Ceará, viveu outra situação inesperada: foi abordado por integrantes de um grupo envolvido em assaltos a bancos, que, em vez de atacá-lo, decidiram conversar com ele. São episódios que fazem parte de uma viagem marcada tanto pelos riscos da estrada quanto pelos encontros inesperados.

O sonho começou com o irmão, em 1992. Décadas depois, Paranhos continua caminhando pelo Brasil para manter viva aquela ideia.
No Vale do Jequitinhonha, uma experiência aparentemente simples se transformou em uma das lembranças mais marcantes da viagem. Em uma região onde a água é um recurso escasso, Paranhos foi recebido por uma mulher que lhe ofereceu um copo de água salobra e suja, servido em uma lata de ervilha. O gesto, segundo ele, representa a generosidade de quem possui pouco, mas ainda encontra uma maneira de oferecer alguma coisa ao outro.
A vida na estrada também exige criatividade para garantir o básico. Paranhos consegue manter sua alimentação com a venda de balas e chocolates durante o percurso. Para dormir, busca apoio de instituições e pessoas nas cidades onde passa. Em Lavras, ficou hospedado no Hostel do Papai, no bairro Centenário. É ali que, entre uma caminhada e outra, conta episódios de sua trajetória e fala sobre os próximos destinos.

Uma mochila. Dois pés. Milhares de histórias.
Para Paranhos, entretanto, a viagem não pode ser resumida à quantidade de quilômetros percorridos ou de municípios visitados. A experiência está nos encontros e nas transformações provocadas pelo caminho. “Não é sobre metas, conquistas e linhas de chegada. É sobre quem você se torna durante a caminhada”, afirma.
De Lavras, o próximo trecho da jornada passa pela Zona da Mata e pelo Vale do Aço, até chegar a Belo Horizonte. Depois, a rota continua por outras regiões do país, passando pelo Nordeste, Norte, Centro-Oeste e Sul. O roteiro ainda é longo, mas Paranhos não parece preocupado com a linha de chegada. Seu objetivo é continuar conhecendo o Brasil por onde a estrada passa.
A bicicleta que marcou a primeira fase do projeto deu lugar à mochila e aos próprios pés. O propósito, porém, permanece próximo daquele sonho iniciado com o irmão em 1992: percorrer o Brasil e descobrir suas diferentes realidades. Mais de três décadas depois, Paranhos continua na estrada, agora em busca das histórias que existem entre uma cidade e outra.
















