segunda-feira , 31 agosto 2026
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Eugênio Gomez revisita álbum de 44 anos com novas intérpretes e participação da filha

Entre violão, literatura e um planeta imaginário em ruínas, médico e compositor revisita um trabalho lançado originalmente em vinil e completa seis décadas de trajetória artística. 

Aos 76 anos, o médico Eugênio Gomez decidiu voltar no tempo — mas sem deixar de olhar para o presente. Quarenta e quatro anos depois de lançar em vinil o trabalho que inspirou o projeto, o compositor catarinense de nascimento e mineiro de coração revisita suas próprias canções em “Recordações de Amon”, novo trabalho musical que reúne cinco composições e já pode ser ouvido no YouTube.

Gomez assina letras, harmonias e músicas. Nesta nova versão, as canções ganham as vozes das cantoras Bárbara Barcellos e Mariana Nunes, nomes conhecidos da cena musical de Belo Horizonte. O projeto também tem um componente familiar: a faixa “Aboio” conta com a participação de Lu Gomez, filha caçula do compositor.

Barcellos construiu uma trajetória marcada por encontros e parcerias com nomes como Toninho Horta, Tavinho Moura, Milton Nascimento, Beto Guedes e Telo Borges. Mariana Nunes também traz no currículo apresentações ao lado de artistas como Milton Nascimento, Vander Lee, Mônica Salmaso e André Mehmari.

Em entrevista ao Curta Lavras, Gomez explica que “Recordações de Amon” nasceu do desejo antigo de revisitar um trabalho que permaneceu guardado por mais de quatro décadas. A nova leitura amplia as possibilidades das composições e passeia por diferentes ritmos, entre xote, reggae, sonata e toada.

O nome do projeto vem de “Amon”, planeta apresentado no filme Barbarella, clássico dirigido por Roger Vadim, com Jane Fonda no papel principal e John Phillip Law como o anjo cego Pygar. Na história, Amon é um planeta degradado que acaba destruído por uma bomba — uma imagem que, para Gomez, continua carregada de significado.“Amon é um planeta bizarro e degradado que no final é pulverizado pela bomba. Qualquer semelhança com a Terra não é mera coincidência.”

Segundo o compositor, a vontade de reeditar o trabalho existia há anos. Agora, as antigas canções aparecem em uma produção mais intimista, acompanhadas por vídeos gravados em estúdio. “Sempre tive o desejo de reeditá-lo. Os vídeos de estúdio estão lindos e intimistas. As músicas, desta vez, estão com total suingue.”

O lançamento também marca 60 anos de trajetória artística de Eugênio Gomez. Seu primeiro trabalho musical, “Terceiro Amor”, chegou ao público uma década atrás, reunindo 14 canções de sua autoria.

A relação com a música, porém, começou muito antes. E o processo de criação de Gomez passa longe de fórmulas prontas. Ele conta que suas composições não seguem regras e que a literatura ocupa um espaço central em sua formação. “Todas as minhas composições não obedecem a regra alguma. Minhas influências são 80% literárias. Sou um leitor voraz.”

A criação, segundo ele, acontece sem pressa. A melodia costuma aparecer primeiro, enquanto as harmonias são trabalhadas exaustivamente ao violão antes que as letras encontrem seu lugar. “Meu processo criativo é lento, sem regras e sem compromisso com nada. A melodia sempre antecede as letras. As harmonias são muito e exaustivamente trabalhadas ao violão, sem pressa nem compromisso.”

O retorno com “Recordações de Amon” dá sequência a uma trajetória que também passa pela literatura, pela medicina e pela família. Eugênio Gomez é pai da premiada dramaturga belorizontina Silvia Gomez e da atriz lavrense Débora Gomez, que construiu carreira na televisão, no cinema e no teatro e interpreta a boneca Emília na nova versão de Sítio do Picapau Amarelo do SBT.

Antes de “Recordações de Amon”, sua última empreitada musical havia sido “As Terras do Sem Fim”, lançado em 2023. O álbum presta homenagem ao maestro mineiro José Guimarães, compositor que, segundo Gomez, morreu sem receber o reconhecimento que merecia. Para o projeto, ele colocou letras em melodias deixadas pelo músico.

Agora, aos 76, Eugênio Gomez retorna às próprias memórias para mostrar que algumas canções não envelhecem — apenas esperam o momento certo para serem ouvidas novamente.

“Recordações de Amon” está disponível no YouTube e nas plataformas digitais.

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