O historiador norte-americano James N. Green conversou com o Curta Lavras antes da aula magna do curso de Comunicação Integrada e Mídias Digitais da UFLA, em Lavras.
Democracia, direitos humanos e os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ estiveram entre os temas da aula magna do curso de Comunicação Integrada e Mídias Digitais, da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas (FCSA) da UFLA, realizada na segunda-feira (21), em Lavras.
O encontro contou com a participação do historiador norte-americano James N. Green, que conversou com estudantes e respondeu a perguntas de alunos e professores sobre sua trajetória acadêmica, a ditadura militar brasileira e os desafios atuais da democracia.
Antes da aula magna, realizada em um hotel da cidade, Green conversou com o Curta Lavras e analisou os cenários político e social dos Estados Unidos, do Brasil e da América Latina.

Público acompanha a aula magna do curso de Comunicação Integrada e Mídias Digitais, da FCSA/UFLA, em Lavras.
Críticas ao governo Trump
Ao comentar as eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos, Green afirmou que o resultado poderá alterar o equilíbrio de forças no Congresso. Atualmente, os republicanos controlam a Câmara e o Senado.
“Existe a possibilidade de essa situação ser revertida, permitindo aos democratas resistir parcialmente aos danos que Trump está causando no país”, disse.
Segundo o historiador, o governo norte-americano vem desmontando políticas de igualdade social, combate ao racismo e proteção às populações vulneráveis.
“Todas as conquistas dos negros ao longo dos últimos 60 anos estão sendo desmanteladas. Também estão sendo retirados benefícios destinados às pessoas mais carentes, como programas de saúde e assistência alimentar. Tudo está sendo eliminado”, afirmou.
Green também criticou a política econômica de Trump. Para ele, as tarifas impostas pelo governo, apresentadas como uma estratégia de estímulo à indústria norte-americana, estão contribuindo para o aumento da inflação.
“Quando foi eleito, Trump prometeu reduzir a inflação, melhorar a economia e não promover guerras internacionais. Mas não está fazendo nada para resolver os problemas econômicos”, declarou.
O historiador afirmou ainda que o aumento dos preços dos combustíveis impactou o custo dos alimentos. Também classificou como “desproporcional” o projeto de construção de um grande salão de baile na Casa Branca.
“Como um egomaníaco, Trump está criando monumentos que não têm nada a ver com Washington e destruindo partes da Casa Branca para construir um enorme salão de baile”, disse.

Capa do livro Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX, uma das obras de James N. Green sobre a história da população LGBTQIA+ no país.
Brasil e democracia
Ao analisar o cenário brasileiro, Green afirmou estar preocupado com a possibilidade de retorno da extrema direita ao poder.
“A situação brasileira é muito séria. O país está dividido, polarizado, e existe a possibilidade de as forças da extrema direita voltarem ao poder. Estou muito assustado com isso”, afirmou.
Questionado sobre uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, o historiador disse que o resultado poderia representar uma reação contra as instituições e as pessoas envolvidas na punição dos responsáveis pelos ataques à democracia em 2023.
“Primeiro, haveria uma vingança contra todas as pessoas que corretamente conduziram o processo de punição daqueles que tentaram promover o golpe de 2023. Depois, muitos programas progressistas seriam desmantelados”, disse.
Green também criticou o avanço de propostas que, segundo ele, ameaçam o caráter laico do Estado brasileiro.
“Desde a proclamação da República, o Brasil é um Estado laico. O avanço dos evangélicos é algo preocupante. Existe uma minoria evangélica progressista, mas a grande maioria defende a imposição de valores que não têm nada a ver com o século XXI”, afirmou.
Na avaliação do historiador, a América Latina também enfrenta um período de enfraquecimento das conquistas democráticas. Segundo ele, México e Brasil são atualmente os únicos países da região que podem ser classificados como progressistas.
Direitos LGBTQIA+
Green afirmou que pessoas trans são frequentemente utilizadas como “bodes expiatórios” por setores políticos interessados em mobilizar grupos conservadores.
“O diferente assusta porque questiona as pessoas sobre o que é gênero e sobre o que é considerado normal”, disse.
O historiador defendeu a discussão sobre diversidade nas escolas e afirmou que a controvérsia em torno do chamado “kit gay” estava relacionada a uma proposta de conscientização contra o bullying e os maus-tratos.
“Eu sofri bullying na escola. Acredito que 95% das pessoas que hoje se assumem como gays, lésbicas ou trans sofreram muito bullying quando eram jovens”, afirmou.
Para Green, as pessoas trans estão entre as mais vulneráveis da população LGBTQIA+, principalmente porque muitas são expulsas de casa ainda na adolescência.
“Algumas pessoas são expulsas de casa aos 14 ou 15 anos e acabam indo para as ruas trabalhar, muitas vezes como prostitutas. Isso cria uma situação de violência”, disse.
Segundo o historiador, a exclusão social aumenta a exposição dessa população à violência.
“A grande maioria das pessoas LGBTQIA+ assassinadas, segundo as pesquisas, é formada por pessoas trans. A sociedade utiliza as pessoas mais vulneráveis para mobilizar setores atrasados da população”, afirmou.
















