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Em disco, Dado Villa-Lobos transforma a tensão da pandemia em leveza musical

O músico Dado Villa-Lobos, que lança ‘O que Você Quiser’ – Divulgação.

Dado Villa-Lobos imaginava que o disco que estava preparando poderia se chamar “Exílio no Bairro dos Mortos”. O título vinha do período em que ficou retido em Lisboa, durante a pandemia, sem conseguir voltar ao Brasil —ele morava no bairro da Ajuda, que tem esse apelido um tanto sombrio. O artista, porém, concluiu que a referência —que também mirava em “Exile on Main St.”, álbum dos Rolling Stones— era pesada demais para um álbum que, embora nasça do confinamento, da violência política e da sensação de colapso, procura o tempo todo uma saída pela leveza.

O título escolhido levou o disco para uma zona menos soturna. “O que Você Quiser”, quarto disco solo do guitarrista, faz um balanço dos últimos anos em forma de canções. Há ali o Rio de Janeiro sob tensão, o exílio lusitano, a família espalhada entre Brasil e Portugal, a chegada de netos, a memória dos amigos, as trilhas sonoras que atravessam sua escrita musical e uma inquietação permanente diante do país.

O músico Dado Villa-Lobos, que lança ‘O que Você Quiser’ – Divulgação
“O exílio, que eu digo, é porque eu não tinha como voltar”, diz Dado. “Era a segunda onda da Covid, fiquei dez meses lá, não tinha avião. Uma coisa louca. E aí os temas foram aparecendo. Esse paraíso, a busca de um paraíso improvisado, um mundo conturbado, essa coisa que o Fausto [Fawcett] coloca bem claro em ‘O que Você Quiser’. O disco é uma crônica desses cinco anos, dessa loucura que a gente viveu, das coisas assustadoras que a gente ouvia e via na TV, de como a vida mudou naquele momento e de como foi um desafio passar por isso sendo criativo.”

A abertura, “Endurance”, dá a chave de passagem. Instrumental, eletrônico, de clima cinematográfico, o tema parece conduzir o ouvinte a uma paisagem aérea, num sobrevoo —ou num portal, como define Dado. Ele associa a faixa à história do navegador Ernest Shackleton, que ficou preso no gelo da Antártida com sua tripulação em 1914 e sobreviveu depois de uma travessia extrema. “Me veio essa ideia de você estar passando por um portal, por um sacrifício, por um negócio que você vai chegar à sobrevivência e à vida como você a deseja.”

A expressão “tai chi musical”, usada por Fawcett no texto que escreveu sobre o álbum, ajuda a entender o modo como “O que Você Quiser” tenta transformar tensão em movimento. Para ele, a música de Dado funciona como uma espécie de arte marcial sonora, feita de melodias, texturas e arranjos climáticos que atravessam o corpo do ouvinte para “domar tempestades afetivas”.

As canções do álbum —ou mesmo momentos diferentes do arranjo dentro de uma mesma faixa— alternam peso e delicadeza: as guitarras de “Kill the Klan”, enérgicas como a cidade que vibra na letra; a crueza de “Meu Primo (Hoje É Carnaval)”, sobre um episódio de racismo ocorrido no Rio; o tom meditativo de “Monsanto”; a luminosidade de “Dois Brilhantes”, escrita a partir do nascimento de netos gêmeos.

“Eu fui buscando uma leveza a partir de um momento em que as coisas estavam voltando para o eixo”, diz Dado. “Eu vim encontrar isso no contato com bebês, meus netos.”

A produção começou em demos caseiras feitas por ele, muitas delas nascidas a partir de temas enviados por Emerson Facão, filósofo e parceiro de conversas semanais. Num segundo momento, o músico convocou os produtores Estevão Casé e Rodrigo Tavares para transformar aquelas bases na forma final do álbum.

A experiência com trilhas sonoras ajuda a explicar a construção do disco. Dado compôs para filmes e séries como “Bufo & Spallanzani”, “O Homem do Ano”, “Pro Dia Nascer Feliz” e “Bom Dia, Verônica”. Em “O que Você Quiser”, a canção muitas vezes parece surgir depois do ambiente, como se letra e voz fossem habitar uma cena já montada.

O processo, ele afirma, é próximo do que faz desde o início de sua carreira: “Lá atrás, com a Legião Urbana, a gente compunha primeiro os temas instrumentais, que é basicamente uma trilha. Você busca uma atmosfera, os ritmos e as melodias que vão te levar para algum lugar. Aí só depois que Renato vinha com a letra.”

Presente como parceiro de Dado desde sua estreia em disco, “Jardim de Cactus”, de 2005, Nenung aparece agora em “Lado a Lado”, “Os Pássaros”, “Exílio no Meu Bairro” e “Largo da Paz”. Já em “Adeus Bem-vinda”, Dado inaugura a parceria com Humberto Gessinger —com o reforço de Lucas Vasconcellos.

A participação de Herbert Vianna na faixa, em solo de guitarra, carrega uma memória antiga e afetuosa. Dado lembra que, aos 15 anos, assistia a Herbert e Bi Ribeiro ensaiarem clássicos de Jimi Hendrix e Santana na casa de vovó Ondina —sede dos primeiros ensaios dos Paralamas do Sucesso. “Eu pensei: ‘vou reviver esse momento, trazer o Herbert aqui’. Ele ouviu a música, começou a improvisar e foi isso. Aquele momento renasceu ali.”

Fawcett ajudou Dado a abrir o sentido do título. A frase originalmente era uma acusação dirigida ao Brasil do bolsonarismo em meio à pandemia, no refrão “é isso que você quer, é isso que você terá”. “Eu estava dizendo ‘a escolha é sua’, mas sempre apontando para o que há de pior. Até que Fausto falou: ‘mas pode ser também que você queira alguma coisa para o seu bem’. Ele abriu essa porta.”

Essa ambiguidade dá a cara do disco. “O que Você Quiser” pode soar como ameaça, oferta, ironia ou conselho. Na letra da faixa-título, isso se traduz em imagens de delírio urbano e salvação improvável: “Quero o nirvana de sarjeta/ Quero uma safena de LED pra iluminar meu coração”.

“O que Você Quiser” termina com “Monsanto”, faixa construída sobre a definição de “arte” no dicionário e encerrada com uma frase de Fawcett: “O céu se abriu, meu coração partiu pro êxtase”. Depois de atravessar as dores do confinamento, Dado escolhe fechar o álbum olhando para cima —sem apagar o caos que o gerou, mas insistindo em procurar nele uma abertura na direção da luz.

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