Dalva Lobo ao lado da mãe, Yoshiko Inai, de 90 anos, personagem de uma trajetória marcada por coragem, superação e recomeços entre o Japão e o Brasil. Hoje, em Lavras, mãe e filha celebram a vida cercadas pelo carinho da família.
Por: Marco Bissoli
Aos 90 anos, Yoshiko Inai carrega uma trajetória marcada por coragem, superação, perdas, recomeços e gratidão. Nascida em Nobioka-Ken, na província de Miyazaki-Ken, no Japão, Yoshiko cresceu em uma família de três filhas, sendo a caçula.
Hoje, vivendo em Lavras há cerca de dez anos ao lado da família, encontrou na cidade mineira um lugar de tranquilidade, afeto e acolhimento. Cercada pelo carinho das netas Thais e Yuri e dos quatro bisnetos — Duda, Henrique, Yasmin e Yuichi —, ela celebra a vida com serenidade e gratidão.

Linhas, tesoura, agulhas, bordados e crochês. Entre fios e memórias, Yoshiko Inai transformou delicadeza em arte ao longo da vida.
Filha dos professores Chisao e Yukimori Inai, teve a infância transformada ainda muito cedo pela dor. Sua mãe morreu quando ela tinha meses de idade e Yoshiko passou a ser criada pela avó paterna, Germânia Hirata, figura que ela guarda com profundo amor na memória.
“Minha avó costumava guardar os melhores alimentos para mim. Era muito carinhosa. Ela foi minha mãe e avó ao mesmo tempo”, recorda.
Mesmo em meio às dificuldades enfrentadas pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial, Yoshiko se lembra de uma infância feliz. A menina alegre, levada e cheia de energia permanece viva até hoje no olhar sorridente e no jeito espontâneo da idosa. Arteira, gostava de esconder as agulhas de crochê e as linhas da avó apenas para brincar.
Viagens e recomeços
Em busca de novos horizontes, seu pai, Yukimori Inai, decidiu imigrar para o Brasil. Em 1938, desembarcou em Santos (SP) a bordo do navio cargueiro Rio de Janeiro Maru, acompanhado da pequena Yoshiko, e da avó paterna, Germênia, enquanto duas filhas permaneceram no Japão com a avó materna.

Aos 90 anos, Yoshiko Inai ainda carrega o sorriso, a alegria e o olhar da menina levada que aprendeu a transformar a vida em esperança.
No Brasil, o antigo professor Yukimori precisou trocar a sala de aula pelas lavouras de café em cidades como Araraquara e regiões do Paraná, até conquistar seu próprio pedaço de terra. Yukimori casou-se novamente, e a família enfrentou tempos difíceis.
O período era marcado pela perseguição à colônia japonesa durante o governo de Getúlio Vargas, especialmente no Estado Novo (1937-1945), contexto agravado pela Segunda Guerra Mundial. Muitos imigrantes escondiam alimentos debaixo da terra para sobreviver.
Yoshiko relembra episódios traumáticos daquele período. Em certa ocasião, viu um vizinho japonês ser morto a seu lado por não conseguir responder em português a um soldado getulista. Apesar disso, ela também guarda lembranças afetuosas das viagens com o pai à capital paulista e do carinho recebido de Darcy Vargas, esposa do então presidente, que visitava colônias japonesas.
Mas Yoshiko desejava escrever sua própria história. Aos 14 anos, fugiu de casa. Inconformada com a vida na roça e com os conflitos familiares, decidiu seguir para Barbacena (MG), onde procurou uma tia freira — que já havia se mudado para Roma.
“Eu não gostava da roça e nem da madrasta”, conta.

Peças bordadas à mão por Yoshiko Inai carregam delicadeza, memória e o carinho de quem transformou fios e agulhas em arte ao longo da vida.
Algum tempo depois, retornou para São Paulo. Ainda muito jovem, passou a viver em uma pensão no centro da cidade e começou a trabalhar como doméstica. Foi no Instituto Vicentino Catarina Labouré que conheceu a mulher que mudaria sua vida: a condessa Honorina Álvares Penteado, de quem se tornou dama de companhia.
Mais tarde, também trabalhou como dama de companhia de Maysa, então casada com o empresário André Matarazzo, herdeiro da tradicional família industrial Matarazzo. A futura cantora ganharia fama nacional anos depois.
“A condessa Honorina Alvares Penteado me ajudou muito, me tratou com muito carinho e foi madrinha do meu casamento. Foi o melhor lugar em que trabalhei”, lembra Yoshiko.
Aos 22 anos, casou-se com Idalécio de Souza Lobo. O relacionamento foi marcado por altos e baixos e terminou em separação.
Da união nasceram as filhas Dalva, professora universitária, e Arlene, cabeleireira que chegou a trabalhar com Jaça — conhecido por cuidar do visual de Silvio Santos — e também da atriz e modelo Elke Maravilha.
Para criar as filhas, Yoshiko mergulhou no trabalho. Passou anos bordando e costurando para famílias da elite paulistana.
“Eu trabalhava para gente muito rica. Foi um tempo de muito trabalho e desafios”, relembra.

“Passei por muita coisa na vida, mas nunca deixei de agradecer.”, Yoshiko Inai.
Hoje, em Lavras, Yoshiko segue encontrando felicidade nos pequenos detalhes. O bordado continua sendo seu grande hobby. Panos de prato e toalhas de mesa feitos por ela fazem parte do cenário do quarto onde vive, refletindo talento, delicadeza e gratidão. Na cidade mineira, encontrou o sossego para viver cercada pela família e pelas memórias construídas ao longo de nove décadas.
Neste Dia das Mães, a trajetória de Yoshiko Inai simboliza a força, a coragem e o amor que atravessam gerações.
Entre lembranças do Japão, desafios no Brasil, perdas, recomeços e conquistas, permanece viva a menina alegre e levada que aprendeu cedo a transformar dificuldades em esperança.
Em Lavras, a japonesa de nascimento e brasileira de coração construiu um novo capítulo de sua história — agora marcado pelo carinho da família, pela tranquilidade da cidade e pela gratidão de quem aprendeu a enxergar felicidade nas coisas simples da vida.
















