Nesta série, apresentamos alguns Mestres da Cultura Popular de Lavras.
Por Giselle, presidente do Instituto Phos
Há mais de três décadas, a trajetória de Mestra Nilsa se entrelaça com a história da capoeira como prática cultural, educativa e comunitária. À frente da Escola de Capoeira I Lá Vou Eu, ela consolidou, em Lavras, um trabalho contínuo de preservação e difusão das expressões afro-brasileiras, tornando-se uma das principais referências da cultura popular no município e na microrregião.
A caminhada teve início em 1993, em Campos do Jordão (SP), quando passou a integrar a Escola ainda em seus primeiros anos. Ao longo de mais de três décadas de atuação ininterrupta, participou da consolidação do grupo, inicialmente no interior paulista e, a partir de 2005, em Lavras, para onde a sede foi transferida. Esse movimento marcou o início de um novo ciclo de expansão territorial e fortalecimento comunitário, com a implantação de atividades regulares em bairros populares e a criação de um espaço permanente de ensino vinculado ao Camugerê – Centro de Preservação da Cultura Afro-brasileira.
Em 2022, ao se tornar Mestra de capoeira, Nilsa assumiu a condução da Escola, tornando-se a primeira mulher da microrregião de Lavras a liderar um grupo dessa manifestação cultural. Atualmente, coordena quatro núcleos ativos de ensino, que atendem diretamente centenas de alunos em atividades contínuas de capoeira, maculelê, puxada de rede e musicalidade afro-brasileira. Ao longo de sua trajetória, já ministrou aulas para mais de 1.000 alunos, evidenciando o alcance formativo do trabalho desenvolvido.

As ações vão além do ensino regular. A Mestra Nilsa coordena apresentações públicas em praças, escolas e eventos comunitários, além de promover o tradicional evento anual de troca de cordas, momento simbólico de reconhecimento da trajetória dos alunos. A participação em eventos organizados por outros grupos reforça sua inserção em redes culturais e o reconhecimento de sua atuação.
O impacto social do trabalho é expressivo. No bairro Pedreira, onde a sede funciona desde 2005, a presença contínua da capoeira contribui para o fortalecimento da identidade cultural, da autoestima e do sentimento de pertencimento, especialmente em um território marcado pela presença da população negra e de famílias de baixa renda. No CEACAD, Mestra Nilsa coordena uma das principais frentes de atuação, com aulas regulares de maculelê para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, promovendo formação cultural, disciplina e convivência comunitária.
A atuação também se estende ao bairro Jardim Floresta e à cidade de Campos do Jordão (SP), ampliando o acesso à cultura em diferentes territórios e fortalecendo o caráter descentralizado do projeto. Além disso, o trabalho tem efeito multiplicador, com a formação de lideranças como a Contramestra Camila, que hoje atua como referência dentro do próprio grupo, ampliando o protagonismo feminino na capoeira.

Sob a liderança de Mestra Nilsa, a Escola de Capoeira I Lá Vou Eu acumula reconhecimento institucional relevante. Em 2025, tornou-se o primeiro coletivo cultural certificado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura em Lavras, além de estar cadastrada no Cadastro da Capoeira do IPHAN e ter sua trajetória registrada pelo Instituto Phos. Esses marcos evidenciam o alinhamento do trabalho com políticas de salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro.
Integrando cultura, educação, esporte, saúde e assistência social, a atuação da Mestra Nilsa promove não apenas a transmissão de saberes tradicionais, mas também a inclusão social e a valorização da cultura afro-brasileira. Ao atender crianças, adolescentes, pessoas com deficiência e famílias em situação de vulnerabilidade, seu trabalho reafirma o papel da capoeira como instrumento de transformação social e fortalecimento das comunidades.
















