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Morre Afrika Bambaataa, músico central para o hip-hop, aos 67 anos

Afrika Bambaataano palco Sunset, no Rock in Rio 2011, no Rio de Janeiro. – Danilo Verpa/Folhapress

Afrika Bambaataa, rapper e DJ americano, morreu nesta quinta-feira (9), aos 67 anos. Conhecido como uma das figuras centrais do hip-hop e pioneiro do rap, o artista foi fundamental para formatar o som do gênero com a música “Planet Rock”, de 1982.

Homem negro com óculos escuros e boné estampado segura microfone com a mão direita levantada, em ambiente escuro e desfocado.
Afrika Bambaataa – Mika/Wikimedia
As informações foram dadas pelo TMZ. Segundo o site de notícias, o artista morreu por complicações de um câncer.

Bambaata nasceu em 1957, em Nova York, com o nome Lance Taylor. Mais tarde, adotou Bambaataa como nome artístico. Assim como o DJ Kool Herc, outro pioneiro do hip-hop, sua família tem origem na Jamaica.

O músico começou a ganhar popularidade por volta dos anos 1970. No Bronx, bairro nova-iorquino em que nasceu, organizava encontros que tinham o hip-hop como trilha sonora. Os eventos se transformaram em grandes festas de rua e ganharam visibilidade nacional.

Apareceu com seu primeiro single, “Zulu Nation Throwdown”, em 1980. Nele, fazia referência à Universal Zulu Nation, um coletivo artístico criado por Bambaataa que reunia, na época, rappers, grafiteiros e integrantes da cena hip-hop.

A grande revolução feita por Bambaataa aconteceu em 1982, com o lançamento da música “Planet Rock”. Um dos maiores sucessos do rap de todos os tempos, a faixa determinou as bases da sonoridade do gênero nos anos seguintes e depois deu origem a outros ritmos —como o electro, o Miami bass e até o funk carioca.

Lançada por Bambaataa com Soulsonic Force e sob produção de Arthur Baker, “Planet Rock” emprestava sua estética do grupo alemão Kraftwerk, pioneiro da música eletrônica. A faixa se ancora em sonoridades retiradas —elas na verdade foram recriadas em vez de sampleadas— das músicas “Trans-Europe Express” e “Numbers”, dos alemães.

Especialmente a primeira delas teve um impacto definitivo para Bambaataa. Ele viu nas batidas eletrônicas do Kraftwerk uma conexão com o funk americano —principalmente aquele mais futurista, representado por George Clinton— da época, e a partir daí tirou a influência para criar um funk eletrônico, que ele chamava de electro-funk na época.

“Entendi o trem [do título da música do Kraftwerk] e a viagem como uma metáfora para transportar o som por todo o universo, assim como sua influência e poder. Sempre que sentia a vibração da banda, tudo o que conseguia pensar era que aquilo era algo extraordinário. Essa era a música para o futuro e para viagens espaciais”, ele disse em entrevista ao site Electronic Beats.

Entre as referências de “música do futuro” de Bambaataa e Baker, estavam também a banda japonesa Yellow Magic Orchestra, de Ryuichi Sakamoto, e a obra do inglês Gary Numan.

Com Baker, Bambaataa recriou as harmonias do quarteto alemão usando sintetizadores, e as batidas, com uma máquina Roland TR-808, instrumento fundamental na arquitetura da sonoridade do rap e da música pop até hoje —é o mesmo citada no famoso disco “808s & Heartbreak”, que Kanye West lançou em 2008.

Da aspereza europeia do Kraftwerk, a dupla de rapper e produtor extraiu em “Planet Rock” uma sonoridade eletrônica dançante de batidas graves, com rimas, sons de explosão e melodias épicas, abrindo caminho para o desenvolvimento de uma música eletrônica negra a partir do hip-hop.

Se o impacto de Bambaata para a música eletrônica global é incalculável, dentro do hip-hop ele é um dos grandes pioneiros, com uma importância comparável às dos DJs e lendas Kool Herc e Grandmaster Flash. Eles transformaram os toca-discos em instrumentos musicais, com técnicas como os scratches e os breakbeats, possibilitando que as batidas e trechos dos discos de vinil durassem pelo tempo que quisessem. Bambaataa veio depois com a virada eletrônica.

Outro gênero que teve influência substancial de “Planet Rock” foi o funk brasileiro, gestado na mesma década de 1980. A batida de “Planet Rock” foi copiada pelos produtores de Miami bass, gênero que serviu como base rítmica da gênese do funk —depois desenvolvido em tamborzão, beat-boxes e outras batidas.

A música mais marcante que os DJs usaram para estabelecer o som do funk carioca foi “Beatappella”, presente no EP “808 Volt Mix” —uma referência ao mesmo instrumento usado por Bambaataa em “Planet Rock”—, do DJ Battery Brain, lançado em 1988.

Essa faixa, por conter essencialmente as batidas, sem grandes intervenções melódicas ou vozes gravadas, acabou sendo a mais usada por DJs e MCs nos bailes do Rio de Janeiro. A ausência de elementos abriu caminho para que “Beatappella” fosse usada com total liberdade pelos cantores, que no começo improvisavam suas rimas por cima do batidão —é a época dos “melôs”.

Em 2010, em uma de suas várias passagens pelo Brasil — como na Virada Cultural de São Paulo em 2008, —, Bambaataa disse que conseguia ver sua música refletida no funk.

O rap brasileiro também deixou clara a sua influência. Marcelo D2, em 2003, nomeou seu album “A Procura da Batida Perfeita” em homenagem ao artista, em um disco que unia o samba carioca com batidas do hip-hop nova-iorquino.

Em 2016, Fernanda Abreu lançou “Amor Geral”, álbum que contava com uma parceria entre ela e Bambaataa no single “Tambor”. O astro chegou a aparecer no clipe, gravado no Rio, em uma música que mistura os sons do berimbau e batidas do funk.

Ele também colaborou com a produção de canções de outros grandes nomes da música, como U2, UB40 e James Brown. Bambaataa trabalhou ainda com John Lydon em “World Destruction,” que foi tocada na quarta-feira (8), no show da banda Public Image Ltd, do ex-Sex Pistols, em São Paulo.

Bambaataa fez parte da idealização do Museu Universal do Hip-Hop, projeto que está no papel desde 2012 e programado para abrir suas portas no Bronx, no segundo semestre deste ano.

Apesar do papel fundamental na formatação do hip-hop, o artista foi alvo de uma série de controvérisas. Entre elas, enfrentou diversas acusações de molestar meninos menores de idade.

A acusação, vinda inicialmente de um único homem, dizia que o artista teria abusado dele e o traficado quando ele tinha 12 anos. Após a denúncia, outros casos similares apareceram.

Simultaneamente, a Universal Zulu Nation se desassociou da imagem do artista em uma tentaiva de remover “todos os acusados e aqueles acusados de acobertar as atuais alegações de abuso sexual infantil”.

Bambaataa negou todas as acusações, mas no ano passado perdeu o processo civil por abuso sexual e tráfico de crianças após não comparecer ao tribunal. Ele renunciou ao cargo de líder da associação e foi obrigado a pagar uma indenização à vítima do caso.

Fonte: Folha de São Paulo/Lucas Brêda/ Manuela Mourão.

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