O Ponto de Cultura Camugerê, centro de preservação da cultura afro-brasileira, transformou o muro do seu espaço em um grande manifesto visual e batizou, de modo afetivo, a “praça Iúna”. A pintura reúne três figuras — um indígena, uma pessoa negra e um europeu — em direção ao quilombo Camugerê, referência ao quilombo baiano cujo nome evoca travessia, abrigo e liberdade.
A cena sugere encontro, fricção e aprendizado: caminhos distintos que se cruzam diante do símbolo maior de resistência, o quilombo — lugar de descanso e de fim da escravidão para quem o encontra. No coração do painel, a Ave Iúna surge em destaque, ladeada por espécies da fauna brasileira, como se vigiasse o território e abençoasse o passo de quem chega. O traço firme e as cores vivas fazem do muro um livro aberto, convidando quem passa a ler, sentir e pensar a história do país para além dos velhos manuais.
Na capoeira, a Iúna carrega um valor simbólico: representa sagacidade, mestria e proteção. É ave (associada à anhuma) e é também um toque de berimbau, celebrado por exigir escuta fina, domínio técnico e respeito ao jogo. Ao inscrever essa imagem na paisagem do bairro, o Camugerê afirma uma pedagogia da rua e do olhar — a arte como sala de aula expandida.
O gesto de nomear o entorno como “praça Iúna” inaugura um território de convivência e criação, onde crianças, jovens e famílias podem reconhecer-se em símbolos que contam histórias de luta e pertencimento. Sem impor discursos, o mural articula memórias afro-brasileiras com outras matrizes culturais que forjaram o Brasil, lembrando que identidade não se fecha: se tece, se canta, se dança e se pinta.
Mais que ornamentar, o painel reconfigura o cotidiano: vira ponto de referência, cenário de rodas, parada obrigatória para fotos e conversas. Como todo bom quilombo, o espaço abre caminho para a imaginação política — aquela que insiste em liberdade, cuidado e dignidade. Ao escolher a Iúna como guardiã, o Camugerê sinaliza um compromisso de futuro: formar comunidades atentas, ativas e orgulhosas de sua herança. Na soma de bastões, berimbaus e pincéis, a praça Iúna nasce viva, convidando a cidade a celebrar um patrimônio que resiste porque se reinventa, no encontro entre gesto, cor e memória.
Localizada na Rua da Pedreira, nº 20, no bairro Santa Terezinha, em Lavras-MG, a praça Iúna está a aproximadamente 50 metros da Praça Zumbi dos Palmares.

















