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30 anos sem Caio Fernando Abreu, ‘retrato e afeto de uma geração’, define pesquisador

Caio Fernando de Abreu, escritor e jornalista (Alexandre Tokitaka/Dedoc). 

Há exatos 30 anos, em 25 de fevereiro de 1996, faleceu o escritor Caio Fernando Abreu. Um autor declaradamente gay, que vivia com HIV nos anos 80, nos dias de hoje, figura como um dos mais importantes escritores da literatura brasileira.

Além de ter uma forma própria de escrever, seja em formato de romance, crônicas ou ainda poesia, Caio Fernando não se dedicava apenas à literatura, ele desenvolveu diversos projetos para teatro, tendo tido a oportunidade de viver com a escritora Hilda Hilst na Casa do Sol, em Campinas (SP). Além disso, seu romance Por onde andará Dulce Veiga ganhou uma adaptação para o cinema.

Ramon Nunes Mello, jornalista e ativista dos direitos humanos, disse, ao Conversar Bem Viver que Caio Fernando Abreu era uma referência na sua geração e colocava em suas obras um retrato da geração 80, mas trazia um olhar cheio de afeto e vivência daquele período.

Antes mesmo de receber o diagnóstico de HIV, ele já colocava essa realidade nos seus textos e foi pioneiro em falar abertamente sobre a doença publicamente.

Confira a entrevista na íntegra

Brasil de Fato: Dizer que Caio Fernando Abreu foi  um divisor de águas, no que diz respeito à literatura, à poesia brasileira é exagero da minha parte ou a gente pode colocar ele nesse patamar?

Ramon Nunes Mello: Sem dúvida o Caio Fernando Abreu, nosso Caio F. é um escritor importantíssimo na história da literatura brasileira, desde o seu surgimento com o Limite branco, seu primeiro romance. O Caio traz uma característica e uma influência que permanece até hoje, principalmente entre os jovens autores, os jovens os leitores que estão descobrindo a literatura, ele tem um uma forma de escrever  muito específica, com sua ficção, com sua poesia e também com suas crônicas ele que fez um retrato, uma cronologia da sua geração. Não tem como falar dos anos 80, da literatura brasileira, sem falar do Caio Fernando Abreu. Ele é uma referência importantíssima, porque ele trazia não só o retrato da geração, mas trazia um olhar cheio de afeto, de vivência daquele período.

Se  você lê os contos do Caio, lê a poesia do Caio, você vai encontrar ali obras, não só de outros autores, como, Clarice Lispector, Lia Fagundes Telles, mas você vai encontrar também a música popular brasileira pulsando dentro da da literatura dele. Então, tem ali, Angela Ro Ro tocando, Rita Lee, Ney Matogrosso. Tem uma poesia da música brasileira dentro da literatura do Caio.

Ele é um autor que declaradamente, gay, passou pelo teatro, viveu na Casa do Sol, com Hilda Hilst. Então, você tem toda essa experiência e ela acaba transformando a forma com que ele escreve. Então, desde os livros mais famosos dele como Morangos Mofados, o grande livro que ele foi premiado, que foi escrito no período em que você tem ali a ditadura presente, você tem ali a opressão presente, o preconceito. Ele era uma grande antena da geração.

O Caio morreu em 1996 de Aids, numa época em que a epidemia da Aids era, de fato, uma sentença de morte. Se ele vivesse um pouquinho mais, ele pegava as novas medicações antirretrovirais que surgem em 1996 e que foram se aprimorando até hoje, para que as pessoas que vivem com HIV, como é o meu caso, sou um ativista, falo do HIV e da Aids, pudessem viver com mais dignidade e pudessem estar aí produzindo.

Mas eu tô falando isso porque o Caio, muito antes de ter HIV, já tratava da questão do HIV dentro da sua literatura. O primeiro conto do Caio que aborda a questão da AIDS, é Linda, Uma História Horrível, de um cara que volta para casa e vai ver a mãe, tem um cachorro super doente e lá ele se olha no espelho e se vê decadente, adoecido. O Caio viu os amigos dele adoecendo muito antes dele pegar o seu diagnóstico positivo. E nesse  momento, ele já começava a trazer isso para a literatura.

Isso foi muito pioneiro, porque é um assunto ainda hoje era tabu, nos anos 1980 quando surgiu, era mais tabu ainda. As pessoas mal escreviam sobre  a temática do HIV, e o Caio não só escrevia, mas ele escrevia de uma maneira elíptica, cheia de metáforas. Ele não era panfletário no que ele fazia. Ele trazia o universo do medo, do pânico, da morte para sua literatura e ao mesmo tempo uma doçura, uma melancolia, o Caio tem isso tudo presente na literatura dele, e abordando ali os bastidores do meio LGBT+, como a gente chama hoje, mas o mundo gay, principalmente, se você pegar outros contos do Caio, ele tem esse universo muito presente.

E o Caio, ele tinha um dom muito grande com a sua escrita. Ele escreveu poesia, escreveu conto, escreveu romance… Por onde andará Dulce Veiga é incrível e foi transformado para o cinema. Ele escrevia para teatro, teve obras adaptadas para o teatro. Então celebrar a vida dele, eu acho muito importante, porque é lembrar esse artista, esse ser humano que dedicou a vida dele à literatura e fez isso lindamente.

O Caio, quando adoeceu, foi morar em Porto Alegre, ficou se dedicando a revisar os seus contos, revisar os seus livros, a publicar, viajou para divulgar a sua obra fora do país. Acho importante essa memória.

No momento que eu comecei a resgatar mais da obra dele para me preparar para a entrevista, eu vi como nos anos 1970 ele foi diretamente perseguido pela ditadura militar, teve que se exilar. Eu queria te ouvir mais sobre esse período que ele morou com a grande escritora Hilda Hilst na Casa do Sol, em Campinas.

A arte sempre foi um refúgio para esse período. E quando ele vai para a Casa do Sol, tem ali uma mistura de um autor iniciante com sua escritora de referência, que era Hilda, se colocando naquele lugar de aprendizado e depois de parceiro de ofício.

Então, você tem essa troca muito profunda, e você traz esse enfrentamento dessa ditadura através da arte na forma como ele escrevia as crônicas, como ele escrevia os contos e publicava os livros, se posicionava publicamente.

Tem uma entrevista do Caio que é antológica, que é ele com a Raquel de Queirós, num programa de TV, se recusando a participar com alguém que apoiou a ditadura. Ele era um cara muito firme nos seus posicionamentos. Você vê isso não só na sua escrita, mas também no seu posicionamento enquanto autor. Isso está presente na vida do Caio.

Ele está muito além de ser um escritor que escreveu somente sobre o meio LGBT+ ou sobre a questão da Aids. De fato, ele foi pioneiro, ele tinha uma forma diferente de escrever.

Ele era uma pessoa de cultura. O Caio tinha um pensamento sobre o país, sobre a cultura. Ele tinha um olhar que, ao mesmo tempo era delicado, mas era muito irônico. Se você pegar as cartas do Caio, que foram organizadas pelo Ítalo Moriconi, ou se você for na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Arquivo Museu de Literatura Brasileira, onde está parte das cartas de autores. Ele recebia a carta da Clarice Lispector, do Milton Hatoum, do João Gilberto Trevisan, do Sérgio Santana, era muito diverso, dialogava com todo mundo.

Ter esse registro é entender o pensamento de alguém que se colocou para viver de literatura. Numa época em que não havia internet, não havia mídia social. As pessoas tinham que trabalhar em revista, em jornais. Então, ali está retratando o perrengue de viver com o jornalismo, a dificuldade da grana, de publicação, de conseguir ser publicado, antes de se tornar um autor conhecido. Uma pessoa que dedicou a sua vida à literatura e apresentar não só uma nova forma de escrita, de narrativa, mas também de diálogo com outros autores brasileiros,

Eu li uma vez uma entrevista do Ítalo Moriconi falando que o Caio, Fernando Abreu, o Cazuza e o Renato Russo eram irmãos de alma, três grandes artistas que morreram de Aids e e o Cazuza e o Caio tinham a Clarice [Lispector] como uma referência assim da literatura e você vê esse diálogo, você tem ali dois faróis da geração atentos ao que estava sendo escrito.

No Brasil, a gente carece muito de reconhecer os nossos heróis e heroínas em vida. Normalmente, a gente só olha para eles e para elas depois que não estão mais entre nós. Você colocaria o Caio Fernando também nesse bojo de um grande artista só reconhecido após a morte ou o Brasil conseguiu olhar para a grandeza dele enquanto ele esteve aqui?

Eu acho que o Brasil conseguiu olhar para o Caio com a grandeza que ele tinha, mas talvez não com a atenção devida, sabe? Reconheceram, mas ele poderia ter sido muito mais reconhecido.

Tanto que ele foi publicado fora do Brasil, ele alcançou uma grande editora de publicação, publicou contos e romances. Depois que ele faleceu, ele recebeu uma atenção maior, mas isso acaba sendo um pouco do fetiche da literatura. A morte traz um interesse. E, principalmente, quando se trata de uma morte trágica, assim, um autor se mata, por exemplo, como é o caso da Ana Cristina César, ou quando alguém morre de uma doença muito muito intensa, isso chama atenção de alguma maneira talvez mórbida dos leitores e dos editores. Até hoje o Caio é estudado na academia. Ele é uma referência muito grande para quem estuda literatura brasileira, principalmente nesse período da contracultura.

Eu acho que ele recebeu a atenção devida, mas ele poderia ter tido uma vida mais confortável para escrever. Se for falar da política de cultura relacionada à literatura, a gente tem pouquíssimos editais de incentivo para escritores, para poder ter bolsas de escrita criativa ou residência artística.

Você tem para as outras áreas artísticas do teatro, do cinema, que são muito mais organizadas, porque são também trabalhos mais coletivos, já o ofício do autor, obviamente, é coletivo, porque você tem editor, tem diagramador, mas o ofício em si, é ele sozinho, diante do papel.

O Caio chegou a publicar uma crônica intitulada Cartas para Além dos Muros, o qual ele assumia publicamente que ele era uma pessoa que vivia com HIV. Você acredita que a sociedade tentou deslegitimar o poder de escrita dele?

Eu acho que são muitas camadas, tem várias questões aí. O Caio, quando escreveu Carta para além dos muros, o preconceito era tão grande, que ele não conseguia nem escrever as palavras HIV e Aids. Ele fica tentando dizer que ele está doente.as crônicas são justamente ele falando: tente entender o que eu tento dizer. Eu não sei se a sociedade em si pegou isso e transformou num lugar de querer deixar no limbo. Não acredito muito nisso, mas eu acho que, é, o próprio mercado literário, quando surge a Aids, ali no início dos anos 1980, e começa a ter as primeiras publicações que tratam da temática, essas primeiras publicações geralmente são livros de depoimentos da vivência com Aids. Sempre teve um olhar da crítica muito preconceituoso com esses tipos de livro, como se fosse de segunda categoria.

O Marcelo Secron Bessa, um crítico, tem um livro chamado Os Perigosos: Autobiografia e Aids. Ele fala de uma espécie de epidemia discursiva, que é como se fosse um preconceito construído pela própria imprensa com essa questão da Aids. Eu acho que o Caio não sofreu isso, ele já abordava a temática antes nos seus contos, mas ele sempre abordava de uma maneira muito literária e acho que também por isso que a obra dele permanece, porque se ele fosse para um lugar muito do depoimento, eu acho que teria caído nesse lugar de preconceito.

A gente vive numa sociedade completamente machista, homofóbica, a gente sabe disso. E a gente sabe que o mercado também. Se você for olhar as grandes instituições de literatura, por exemplo, a Academia Brasileira de Letras, ela tem mais de 100 anos, agora que começou a ter mulheres.

Dentro da sua autenticidade, da sua coragem de ser quem era, um homem gay que escrevia sobre o próprio universo, eu acho que o Caio teve muito espaço.

Como que a gente pode falar da relação do Ney Matogrosso com Caio? 

O Ney não foi amigo do Caio, mas ele gostava do Caio, ele lia as crônicas, leu livros do Caio. O Cazuza foi mais próximo do do Caio Fernando Abreu, de frequentar as festinhas juntos, tem fotos dos dois juntos, mas o Caio escreveu uma crônica sobre o o Ney, falando da performance do Ney. E ele costumava dar entrevista dizendo que ele era o Ney Matogrosso da literatura. O Caio tinha uma admiração muito grande pelo Ney, pela performance dele, pelo posicionamento político do Ney. Então, acho que era recíproco. O Caio tinha a mesma coragem de ser o que eles são.

Fonte: Ana Rosa Carrara e Lucas Salum/Brasil de Fato 

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