quarta-feira , 18 fevereiro 2026
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UFLA se torna referência nacional em pesquisa com cannabis medicinal

Pesquisa em Lavras busca desenvolver plantas com baixo teor de THC para uso exclusivamente medicinal.

Enquanto milhares de pacientes brasileiros dependem de medicamentos à base de cannabis para tratar doenças que não respondem aos tratamentos convencionais, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (UFLA) vem rompendo barreiras científicas, regulatórias e sociais. Coordenado pela professora Vanessa Cristina Stein e gerenciado pela FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), o projeto é resultado de cerca de 15 anos de estudos e se consolida como uma das iniciativas mais avançadas do país na área de cannabis medicinal.

O laboratório da UFLA é o primeiro do Brasil a obter, de forma simultânea, credenciamento da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) para o cultivo in vitro e a manipulação genética da Cannabis sativa com fins exclusivamente científicos e medicinais. Todo o trabalho ocorre em ambiente totalmente controlado, dentro de laboratório, sem cultivo em campo, sem vínculo com uso recreativo e sem produção direta de medicamentos para comercialização.

Autorizações inéditas colocam UFLA em posição de destaque

A combinação dessas autorizações é considerada rara no Brasil e posiciona a universidade como referência nacional na área. Até poucos anos atrás, nenhuma instituição brasileira reunia todos os credenciamentos necessários para esse tipo de pesquisa. Apenas recentemente, outras instituições, como a Embrapa, passaram a obter autorizações semelhantes, o que reforça o caráter pioneiro do trabalho desenvolvido em Lavras.

O processo de credenciamento foi longo e exigiu adequações estruturais, elaboração de protocolos específicos e atendimento a rigorosos critérios de biossegurança. Segundo a coordenação do projeto, foram necessários anos de preparação para que o laboratório atendesse a todas as exigências técnicas e regulatórias.

Desafio é reduzir o THC diretamente na planta

A Cannabis sativa produz mais de 150 fitocanabinoides, entre eles o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC). O CBD é amplamente utilizado em tratamentos de epilepsia refratária, dores crônicas e distúrbios neurológicos, sem efeito psicoativo. Já o THC, principal composto psicoativo da planta, é indesejável para a maioria das aplicações médicas, especialmente quando aparece em concentrações elevadas.

Um dos principais desafios da produção medicinal é que a planta pode aumentar a produção de THC em resposta às condições ambientais, mesmo em cultivos voltados à área da saúde. Isso dificulta a padronização dos medicamentos e eleva os custos de produção, já que exige processos químicos adicionais para remover o composto.

Projeto coordenado pela professora Vanessa Stein é resultado de cerca de 15 anos de estudos na UFLA.

Para enfrentar esse problema, a pesquisa da UFLA atua diretamente na planta, utilizando técnicas de biotecnologia e edição gênica para desenvolver variedades que já cresçam com teor reduzido de THC. A estratégia busca tornar a produção mais segura, previsível e economicamente viável, além de facilitar o controle de qualidade dos medicamentos.

Parceria com a indústria farmacêutica

O projeto é desenvolvido em parceria com a Ease Labs, empresa farmacêutica especializada em medicamentos à base de cannabis. Atualmente, a empresa cultiva a planta em países onde a atividade é regulamentada, como a Colômbia, e importa o insumo para processamento no Brasil.

A demanda apresentada à universidade é reduzir ou eliminar o THC diretamente na planta, evitando processos químicos caros e complexos na etapa industrial. Os resultados obtidos na UFLA serão transferidos à empresa, que dará continuidade às fases de produção até a disponibilização dos medicamentos ao mercado e aos pacientes.

Financiamento enfrentou entraves burocráticos

Apesar de a cannabis ainda ser tema de debates na sociedade, o principal obstáculo enfrentado pela equipe ao longo dos anos foi a burocracia. De acordo com a coordenação, muitos projetos foram inviabilizados pela incompatibilidade entre o prazo de validade das autorizações da Anvisa e os prazos dos editais de fomento, além de exigências administrativas e trâmites demorados.

O projeto em andamento conta com financiamento da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais), após um processo extenso de recursos, adequações técnicas e reavaliações administrativas, que reconheceram o mérito científico e o potencial impacto da pesquisa.

Pesquisa básica com impacto direto na saúde

Embora seja classificada como pesquisa básica, a iniciativa tem impacto direto na área da saúde. O laboratório fornece conhecimento, protocolos e material biológico que subsidiam estudos em modelos animais, pesquisas clínicas conduzidas por grupos parceiros e o desenvolvimento de medicamentos mais seguros e padronizados.

Para o professor Fernando Henrique Ferrari Alves, farmacêutico, pesquisador e diretor do campus da UFLA em São Sebastião do Paraíso, o rigor científico é fundamental. “Quando falamos em cannabis medicinal, estamos tratando de um processo que exige controle de qualidade, validação científica e rigor farmacêutico em todas as etapas. A pesquisa desenvolvida na UFLA é essencial para garantir que os compostos utilizados tenham origem conhecida e concentração controlada”, afirma.

Informação ajuda a combater preconceito

Além dos desafios técnicos e regulatórios, a equipe também enfrenta o preconceito e a desinformação sobre a cannabis medicinal. Para os pesquisadores, comunicar com clareza e base científica é parte do trabalho, ajudando a qualificar o debate público e a diferenciar o uso medicinal da planta do uso recreativo.

Mais do que estudar a Cannabis sativa, a pesquisa desenvolvida na UFLA contribui para aproximar ciência e sociedade, reforçando o papel da universidade pública na produção de conhecimento estratégico e no desenvolvimento de soluções que podem melhorar a qualidade de vida de milhares de pacientes.

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