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Azena, Uma Mulher que Nunca Silenciou

Por: Marco Bissoli

Na semana passada, Lavras perdeu Azena Oliveira aos 84 anos.

E há perdas que não cabem na palavra “perda”. Elas se espalham.

Compositora, arranjadora, professora e musicista, Azena era grande em sua essência criadora. Não fazia da música um ofício apenas — fazia dela um altar. Foi sacerdotisa. Daquelas que seguem tocando mesmo quando a plateia não percebe que está diante de algo sagrado.

Encarou bares noturnos de público disperso, fez da música o metiê dos casamentos, gravou CDs, viveu histórias intensas.

Falou de um grande amor, de um casamento relâmpago, da separação — e, por fim, da música, sua companheira definitiva.

“Eu não nasci para casar. Sou casada com a música. Ela me fez muito mais feliz que o casamento. Ela me deu tudo. Eu componho, eu toco, eu canto em diversas línguas”, disse-me certa vez, sem rodeios, com a serenidade de quem já se entendeu com o mundo.

Entrevistei Azena duas vezes.
Na primeira, ela já enfrentava as sequelas de um acidente doméstico que lhe custara a fratura do fêmur. Morava na Vila Vicentina, em uma casa simples, onde dividia o espaço com um teclado — extensão natural do próprio corpo. A música ainda a sustentava de pé, mesmo sentada.

A segunda entrevista aconteceu em 2023, na Casa do Vovô, ainda sob os resquícios silenciosos da pandemia. Lá estava Azena, agora em cadeira de rodas, mas intacta em espírito. Alegre, viçosa, inteira. Pronta para apresentar um número musical ao piano que havia sido doado à instituição. Não se entregara a nada. Nem à dor, nem ao tempo.

Lembro-me da pequena plateia. Um espetáculo quase anônimo, carregado de sentimentos, memória e vida. Poucos sabiam, mas todos sentiam: algo raro acontecia ali.

Azena foi estrela de televisão ao representar Lavras em dois programas populares de sua época. Tornou-se parceira musical de Paulo Oliveira Alves, o Paulinho Piano. Circulou. Criou. Plantou.

Talvez, por sorte — e justiça tardia —, o nome de Azena Oliveira venha a caber em alguma placa de rua futura. Mas sua verdadeira permanência não depende de esquinas.

Seu talento, ternura e essência hão de perdurar enquanto houver memória, enquanto soar uma melodia, enquanto alguém ouvir — com atenção — o Hino de Lavras.
Ali, em cada nota, Azena permanece.

Azena foi estrela.

E estrelas, mesmo quando se apagam, seguem iluminando.

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