Guto Goffi, Frejat, Mauricio Barros e Dé Palmeira, os quatro primeiros integrantes do Barão Vermelho –
Foi em 1981, após pegarem ônibus do Rio de Janeiro para São Paulo para assistirem ao show do Queen no Morumbi, que o aprendiz de tecladista Mauricio Barros e o estudante de bateria Guto Goffi resolveram fazer alguma coisa diferente.
“Ficamos muito impactados com aquilo. Embora a gente já tivesse algumas bandas instrumentais, voltamos com a convicção de que queríamos ter um grupo de rock, e com cantor. Foi o combustível primordial para a gente começar o que veio a se tornar o Barão Vermelho”, lembra Barros.
E, além dos dois, quem mais você acha que estudava na ProArte, tradicional escola de música do Rio? Dé Palmeira (baixo) e Roberto Frejat (guitarra). São esses quatro integrantes originais que se reúnem agora na turnê “Barão Vermelho Encontro”.
Quatro homens adultos posam juntos contra fundo branco. Dois usam óculos escuros, um veste boné bege e jaqueta jeans, outro usa jaqueta preta com capuz. Homem ao centro atrás usa cachecol marrom e jaqueta preta, olhando para frente. Homem à direita veste jaqueta preta e olha diretamente para a câmera.
Guto Goffi, Frejat, Mauricio Barros e Dé Palmeira, os quatro primeiros integrantes do Barão Vermelho – Pedro Dimitrow/Divulgação
Em 2023, a produtora 30e havia conseguido colocar no palco os sete integrantes do Titãs, no que foi um tour de grande sucesso, com 48 shows. Agora faz o mesmo com o Barão.
A turnê começa nesta quinta (30), no Rio de Janeiro, e outras datas já marcadas são em São Paulo, 23 de maio; Porto Alegre, 27 de junho; Florianópolis, 8 de agosto; Curitiba, 29 de agosto; e Belo Horizonte, 26 de julho.
No Rio e em São Paulo, a banda contará com a presença especial de Ney Matogrosso. “É uma participação que envolve mais de uma música, ele entra em um bloco do show”, afirma Frejat.
Os encontros acontecem como um projeto paralelo às atividades atuais dos músicos —Barros e Goffi estão se apresentando como Barão Vermelho, ao lado de um novo vocalista e de outros músicos. Não é, portanto, uma volta de Frejat, que já lançou cinco discos solo, ao grupo carioca.
O repertório é aquilo que fãs querem ouvir, as canções mais famosas do Barão dos anos 1980 e 1990. “Você não vai para uma arena tocar música obscura ou ficar lançando coisa nova”, diz Barros. “E olha que deixamos coisa de fora, porque não cabe tudo”, diz Goffi.
Quando esses dois resolveram montar o Barão Vermelho, porém, o problema era o oposto: eles mal tinham músicas para ensaiar. “Quando chegou o Dé e o Frejat, a gente tinha duas músicas que eu e o Guto tínhamos feito”, lembra Barros.
E quando Cazuza (1958-1990) entrou, algumas semanas depois, o novo vocalista logo quis reescrevê-las. “Ele foi trazendo para o universo da boemia carioca. Ficou claro para nós que tínhamos ganhado um poeta também”, diz o tecladista.
“E o lance do Cazuza entrar, lembro que foi muito difícil convencê-lo”, diz Goffi. “Eu falei: ‘quer cantar numa banda de rock?’ E ele respondeu ‘quero’.”
Anos mais tarde, Cazuza, que comporia bossas novas, passou a ser identificado mais como da MPB. Mas o Barão jamais perderia a aura de rock’n’roll. E aquele começo teve tudo a ver com isso, indo muito além do Queen.
“Uma referência que funcionava para nós quatro era o Van Halen, aqueles dois primeiros discos deles”, conta Frejat. “Comigo tinha muito Rolling Stones, blues e Led Zeppelin, essa coisa do rock mais clássico. E o Police era uma banda presente.”
“Eu queria aprender a tocar rock e eles eram realmente roqueiros”, diz Palmeira. Mas, para quem acha que o Barão torcia o nariz para a produção nacional, não era bem assim. “Talvez tenha ficado esse carimbo de MPB em mim, mas todo mundo ali gostava de música brasileira”, continua o baixista.
“A gente era muito fã da Cor do Som, do Pepeu Gomes. O ‘Acabou Chorare’, do Novos Baianos, é um dos discos que eu mais ouvi na minha vida”, diz Goffi.
“Eu gostava muito de Mutantes, tinha essa pegada mais de rock brasileiro também. Mas também curtia música brasileira, Jair Rodrigues, Benito di Paula, como qualquer brasileiro”, completa Frejat.
Essa combinação de referências se refletiu na forma como as músicas passaram a ser construídas com Cazuza. Segundo os integrantes, a banda passou a organizar os arranjos em função das letras. “A gente fazia uma moldura musical sem atrapalhar o discurso”, conta Goffi. “A letra ia levando.”
Cinco pessoas posando em uma escada em espiral, com um edifício ao fundo. Eles estão sorrindo e se divertindo. O ambiente é urbano, com janelas visíveis no prédio. As pessoas estão vestindo camisetas e jeans, e a imagem é em preto e branco.
Cazuza, Frejat, Mauricio Barros, Dé Palmeira e Guto Goffi em foto de 1983 – Folhapress
Esse cuidado com a voz e as letras de Cazuza virou uma marca desde o primeiro disco. “A gente nunca teve problema de alguém dizer que não entendia o que estava sendo cantado”, diz Frejat. “Os arranjos já eram feitos para sustentar a voz.”
Ao gravar e lançar seu primeiro disco, homônimo, em 1982, o Barão não estava sozinho. “Outras bandas começavam a aparecer, ainda que em estágios diferentes”, fala Frejat, citando os nomes de Lulu Santos, Blitz e Rádio Táxi, como os de uma nova geração no rock brasileiro.
“Tinha o Lobão. E o Camisa de Vênus, que estava começando ali naquele ano também. O João Penca e os Miquinhos Amestrados. O Léo Jaime”, vai lembrando Frejat.
Mesmo assim, o cenário era limitado. “Todo mundo tinha uma banda, mas não tinha lugar para tocar”, afirma Barros. No Rio, segundo ele, as bandas tocavam em seus apartamentos. “Não era um movimento articulado, como a Tropicália”, diz Frejat.
O Barão saiu desse contexto e alcançou o estrelato. Décadas depois, o reencontro retorna a um ponto inicial em que a banda ainda estava sendo definida —e que, segundo eles, não se sabe quando poderá ser repetido.
Fonte: Ivan Finotti/Folha de São Paulo
















