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“Mais leveza que rigor”: Vanderlei Barbosa fala sobre fé, escrita e poesia

Desacelerar também é pensar. Vanderlei Barbosa fala sobre literatura, contemplação e beleza como forma de conhecimento.

“O escritor é uma criança curiosa”. A frase do escritor e filósofo Vanderlei Barbosa — mineiro de Inconfidentes, professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e membro da Academia Lavrense de Letras — ecoa como um princípio ético-estético que atravessa sua obra e sua maneira de habitar o mundo. Entre a filosofia e a literatura, a fé e a experiência estética, sua escrita aposta na delicadeza do olhar e na escuta atenta do cotidiano, sem abrir mão da densidade do pensamento.

Em um final de ano marcado por aceleração, cansaço e excessos de urgência, Vanderlei nos convida a desacelerar. A pausa, para ele, não é fuga, mas método: um modo de reencontrar o sentido, a linguagem e a infância interior que sustenta o gesto criativo. Sua reflexão propõe a leveza poética como via de acesso à complexidade da vida — uma alternativa ao rigor excessivo que, muitas vezes, empobrece a experiência humana.

Nesta entrevista ao Curta Lavras, o autor fala sobre o significado do Natal em seu pensamento, o diálogo entre ciência e sensibilidade, a vivência do ano sabático em Ouro Preto e os novos rumos de sua produção literária. Entre referências filosóficas, literárias e espirituais, Vanderlei Barbosa compartilha um convite à contemplação, à fraternidade e ao cultivo da beleza como forma de conhecimento.

Vanderlei Barbosa ao lado da escritora Monique Malcher, vencedora do Prêmio Jabuti 2021, durante imersão de escrita e troca de experiências literárias.

Para o senhor, como escritor e filósofo, que sentidos o Natal carrega hoje e de que maneira ele atravessa sua forma de pensar e escrever?

Estamos em dezembro, um tempo que marca o término de mais um ano de trabalho e de vida. É um período importante para refletir sobre o encerramento de um ciclo e, ao mesmo tempo, de preparação para o novo que sempre vem.

Na tradição cristã, agora é hora de parar e sentir a vida que vem numa criança, mas que é anúncio de alegria e de boa-nova. O Natal é repleto de significados. Um deles, apropriado pela cultura do consumo, coloca como centralidade a figura do “bom velhinho”, o Papai Noel. Para os cristãos, o Natal é a celebração da proximidade de Deus com a nossa humanidade. Deus deixou-se apaixonar pelo ser humano e quis ser um deles.

Como diz belamente Fernando Pessoa, em seu poema sobre o Natal: “Ele é a eterna Criança, o Deus que faltava; ele é o divino que sorri e que brinca; a criança tão humana que é divina”. Desejo que recuperemos a criança interior que carregamos sempre dentro de nós, que sente necessidade de ser cuidada e, quando já crescida, tem o impulso de cuidar.

O Natal é uma festa de luz, de fraternidade universal, a festa da família reunida ao redor de uma mesa. Mais que comer, comunga-se da vida de uns e de outros e da generosidade dos frutos de nossa Mãe Terra e da arte culinária do trabalho humano. Por um momento, esquecemos os afazeres cotidianos, o peso da existência trabalhosa, as tensões entre familiares e amigos, e nos irmanamos na alegre comensalidade. Comensalidade significa comer juntos ao redor da mesma mesa, como se fazia outrora: todos se reuniam, conversavam, comiam e bebiam à mesa.

Ao lado da Prefeita Jussara Menicucci durante a 4 ª FliLavras – Feira Literária de Lavras. 

Ao longo de sua trajetória, o senhor sempre cultivou o diálogo com leitores e autores de diferentes campos do saber. Em um ano tão intenso, como esse exercício do diálogo se transformou ou se aprofundou?

2025 foi e está sendo um ano extraordinário. Depois de 25 anos de trabalho e pesquisa, tirei 2025 para ser o meu ano sabático, período em que estou realizando o meu pós-doutorado na Universidade Federal de Ouro Preto. Assim, intencionalmente, tenho procurado combinar a inteligência instrumental-analítica, de onde nos vem o rigor científico, com a inteligência emocional-cordial, de onde derivam as imagens e os mitos.

Em outras palavras, estou me atendo mais à linguagem estética do que à linguagem do método. É isso: mais do que o rigor sistemático, estou vivendo a experiência da leveza poética.

O escritor Hermann Hesse, no livro O jogo das contas de vidro, descreve com precisão esse meu sentimento de leveza estético-poética da seguinte maneira:

“E agora, que estou livre de todas as obrigações oficiais, sinto-me atraído pela ideia de usar meu tempo livre e bom humor para, num desses dias, escrever um livro — ou antes, um livrinho, uma coisinha para os amigos e aqueles que partilham dos meus pontos de vista. O assunto não terá a menor importância. Será apenas um pretexto para que eu me isole a fim de gozar a felicidade de ter tempo de lazer. O importante mesmo será o tom, que deverá estar entre o solene e o íntimo, entre o sério e o brinquedo, um tom que não seja de instrução, mas de conversa amigável sobre as várias coisas que aprendi…”.

Essas são palavras deliciosas de Magister Ludi, autoridade suprema de uma ordem monástica dedicada ao cultivo e ao gozo da beleza.

Durante seu ano sabático, Vanderlei Barbosa realiza pós-doutorado em Ouro Preto, vivenciando uma imersão de escrita, pesquisa e observação da vida cotidiana.

Que significado tem para o senhor circular por festas e festivais literários, levando seus livros, encontrando leitores e reencontrando amigos da literatura?

Esses encontros reafirmam que a literatura é, antes de tudo, um gesto de partilha. Estar em festas e festivais literários é sair do isolamento do gabinete e colocar o texto em circulação viva, em diálogo com as pessoas.

Reencontrar amigos da literatura, conhecer novos leitores e ouvir como os livros chegam até eles é uma forma de aprendizagem contínua. A escrita não termina quando o livro é publicado; ela continua no encontro, na conversa, na escuta. É nesse movimento que a literatura se mantém viva e necessária.

Participando de encontros, diálogos e atividades literárias em Lagoa da Prata (MG).

Por que Ouro Preto foi o lugar escolhido para essa experiência de escrita e pesquisa neste ano sabático em sua vida?

Pela história, pela cultura, pelos museus, pela casa de ópera, pela arquitetura, pelas igrejas, pela culinária. Estou vivendo uma imersão de escrita a partir das ferramentas etnográficas.

A etnografia é um método originário do campo da antropologia, mas que é utilizado por muitos outros campos das ciências humanas, como a sociologia, a psicologia e a filosofia. Traduzindo de forma simples: etnografia é olhar para a vida. O pesquisador utiliza a observação participante para resgatar e descrever a cultura de dentro para fora. Dessa experiência vai nascer um livro.

Vanderlei Barbosa durante a Festa Literária de Paraty (FLIP). 

O senhor já antecipa que o próximo ano trará novidades. Podemos esperar novos caminhos na sua produção literária?

Tenho participado de muitos eventos e festas literárias, levando meus livros, conhecendo pessoas interessantes, dialogando com leitores e representando a Academia Lavrense de Letras. O escritor é, antes de tudo, alguém que se deixa afetar pelos encontros.

Este ano também fiz uma imersão de escrita em ficção com a escritora Monique Malcher, vencedora do Prêmio Jabuti em 2021, com o livro de contos Flor de Gume. Foi uma experiência muito significativa, que abriu novas possibilidades de linguagem e de escuta.

Posso dizer que o próximo ano trará novidades, sim. Novos textos, novos formatos e, sobretudo, a continuidade desse caminho que aposta menos no rigor excessivo e mais na leveza poética como forma de compreender e narrar a vida.

É um prazer estar no Curta Lavras mais uma vez. Agradeço pela oportunidade de diálogo. Gratidão a você, Marco Bissoli e equipe do Curta Lavras pela oportunidade de compartilhar minhas experiências literárias. Muito obrigado! Que 2026 seja um ano fecundo e promissor para todos nós. Feliz Natal!!! Boas Festas!!!

Vanderlei Barbosa no Festival Entre Montes e Versos, em Inconfidentes (MG).

 

 

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