Em entrevista ao Curta Lavras, durante visita a Lavras, a professora e jornalista fala sobre representação trans na mídia, violência, políticas públicas, educação e inclusão.
Sara Wagner York é professora, pesquisadora, jornalista e psicanalista. Doutora e mestra em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), realiza pós-doutorado em Semiótica na Universidade Estadual Paulista (Unesp), com apoio da Fapesp. Sua atuação reúne temas como comunicação, educação, diversidade, saúde e direitos humanos.
Travesti e pessoa com deficiência visual, foi a primeira travesti a ancorar um programa jornalístico no Brasil e apresentou mais de 200 programas na mídia Brasil 247. Também integra grupos de trabalho do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania voltados a temas como intersexualidade, memória LGBTI+ e avaliação biopsicossocial da deficiência.
Em meio à agenda do DiverCom, Sara reservou um tempo para conversar com a reportagem do Curta Lavras em um hotel da cidade. O papo passou por diferentes assuntos e ganhou uma pausa descontraída quando alguns micos apareceram na área da piscina. Entre a conversa e a visita inesperada, diversidade e inclusão também estiveram presentes naquele encontro.
Representação trans no jornalismo
Curta Lavras — Você foi a primeira travesti a ancorar um programa jornalístico no Brasil. O que significa ocupar esse espaço?
Sara Wagner York — Há uma diferença muito grande entre ser uma jornalista trans e ser uma jornalista que ancora um programa. Ancorar é muito difícil porque você também determina as pautas. Como travesti, preciso ter uma dose de bom senso e de implicação política para fazer a coisa certa.
Estar nesse espaço é também perceber o que ainda não chega às pautas. Quando as pessoas falam em democracia, eu preciso perguntar: democracia para quem? A população trans ainda sofre muita violência.

Violência e dados
Curta Lavras — O Brasil costuma ser citado como o país que mais mata pessoas trans no mundo. Como você avalia esse dado?
Sara — Esse dado existe, e eu fui revisora dos levantamentos até 2023. Dentro das instituições que fazem esse acompanhamento, o Brasil aparece na ponta em violência contra a população trans. Mas não temos dados equivalentes da Ásia e da África. Por isso, é preciso ter cuidado ao afirmar que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo: há regiões sobre as quais não temos informações comparáveis.
Comunicação, pesquisa e políticas públicas
Curta Lavras — Como a pesquisa e a comunicação podem contribuir para a construção de políticas públicas?
Sara — De forma fundamental. A pesquisa ajuda a compreender os problemas, e a comunicação permite que eles sejam debatidos. Também precisamos de espaços de participação e de mecanismos de controle.
Quando alguém apresenta uma informação falsa em um programa jornalístico, por exemplo, é necessário que haja condições para contestá-la e contextualizá-la. Isso faz parte de um sistema de pesos e contrapesos. Não se trata de silenciar quem pensa diferente, mas de garantir que haja discernimento e espaço para apontar quando algo não está correto.
Educação e direitos humanos
Curta Lavras — Educação, comunicação, saúde e direitos humanos são temas que se cruzam. Por que é importante discuti-los em conjunto?
Sara — A educação ainda é a nossa maior chave. Respostas rápidas para problemas sociais costumam simplificar questões que precisam ser compreendidas em seu contexto. É importante discutir o que leva uma pessoa a determinadas situações e pensar em políticas que possam prevenir problemas e oferecer alternativas.
A escola e a universidade têm esse potencial. As pessoas disputam a escola porque sabem que ela é importante. Precisamos discutir que tipo de educação estamos oferecendo e se ela ajuda os estudantes a pensar, compreender a sociedade e lidar com diferentes realidades.
Curta Lavras — Você mencionou a importância de olhar para as diferentes condições de ensino. Como essa discussão aparece quando falamos de escolas cívico-militares?
Sara — Precisamos perguntar que tipo de formação cada escola oferece e quais oportunidades estão disponíveis para diferentes grupos sociais. A educação deve, em sua máxima expressão, ajudar as pessoas a pensar, lidar com paradigmas e compreender estruturas. Quando ela se limita a formatar os estudantes e ensiná-los apenas a internalizar regras, deixa de cumprir parte essencial desse papel.

Universidade e diálogo entre áreas
Curta Lavras — O que representa estar na UFLA e conversar com estudantes e pesquisadores de áreas diversas?
Sara — É uma alegria poder conversar com os universitários e discutir questões importantes para a sociedade brasileira. A UFLA tem um papel fundamental em diferentes áreas, inclusive na discussão agrária. Eu jamais imaginaria uma pessoa trans dialogando com profissionais da agroecologia, do sistema agrário e da educação agrícola. Fico muito feliz com essa possibilidade.
A programação presencial do DiverCom começou nesta quinta-feira (8), na UFLA, com a palestra de abertura “Quem pode falar, existir e ser visto? Corpos dissidentes, mídia e diversidade”, ministrada por Sara Wagner York. Com o tema “Culturas, identidades e interseccionalidades”, o simpósio reúne palestras, mesas de debate e apresentações de pesquisas.
















