terça-feira , 3 novembro 2026
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Outubro Rosa e Novembro Azul na população trans travesti e não binária

Campanhas de saúde devem considerar a diversidade dos corpos, combater o preconceito e ampliar o acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce. Conscientização precisa incluir todas as pessoas.

Por Juliano Gabriel — Acadêmico de Enfermagem | Cuidar Juliano Gabriel

Na passagem do Outubro Rosa para o Novembro Azul, a conscientização sobre o câncer de mama e de próstata ganha espaço nas ruas, nos serviços de saúde e nos meios de comunicação. Esse movimento precisa alcançar também pessoas trans, travestis, transexuais e não binárias, que devem ser reconhecidas nas campanhas e acolhidas nos serviços durante todo o ano.

Quando a comunicação associa exclusivamente as mamas às mulheres e a próstata aos homens, parte da população pode não se reconhecer nas orientações. Para oferecer um cuidado adequado, é necessário considerar os órgãos presentes, a idade, o histórico familiar, o uso de hormônios e as cirurgias realizadas, sempre respeitando a identidade de gênero de cada pessoa.

No Outubro Rosa, isso significa lembrar que homens trans e pessoas não binárias que mantêm as mamas também precisam receber orientações e ter acesso ao rastreamento quando indicado. O próprio Instituto Nacional de Câncer (INCA) inclui essas pessoas em suas recomendações. Mulheres trans e travestis também podem desenvolver câncer de mama e necessitam de avaliação individualizada, considerando, entre outros fatores, o histórico de exposição hormonal e os antecedentes familiares. [1, 2]

Conhecer o próprio corpo ajuda a perceber mudanças. Caroços nas mamas, no peito ou nas axilas, alterações na pele e no mamilo e saída espontânea de líquido devem motivar a procura por atendimento. Esses sinais não significam, necessariamente, câncer, mas precisam ser investigados. O chamado autoexame não previne a doença nem substitui a avaliação profissional e a mamografia, quando indicada. [3, 4]

No Novembro Azul, a inclusão exige reconhecer que mulheres trans, travestis e algumas pessoas não binárias também possuem próstata. Mesmo após cirurgias de afirmação de gênero, esse órgão geralmente permanece no corpo. Por isso, o cuidado com a próstata não deve ser definido apenas pelo gênero ou pelo nome registrado no documento. Da mesma forma, ser homem trans não significa precisar de exames de próstata: a avaliação depende dos órgãos presentes e das necessidades clínicas. [2, 5]

Também é fundamental divulgar informações corretas sobre os exames. O Ministério da Saúde e o INCA não recomendam campanhas de rastreamento populacional do câncer de próstata em pessoas sem sintomas. A realização de PSA e outros exames deve envolver avaliação clínica e discussão sobre possíveis benefícios e riscos. Dificuldade para urinar, mudanças no jato urinário ou sangue na urina precisam ser investigados, embora possam ter outras causas. Não recomendar exames indiscriminados é diferente de deixar de oferecer assistência. [6]

A conscientização, entretanto, precisa vir acompanhada de condições reais de acesso. Discriminação e exclusão são barreiras reconhecidas no cuidado à saúde dessa população. Para enfrentá-las, os serviços devem investir na capacitação das equipes, no respeito ao nome e aos pronomes, na privacidade e em uma comunicação que acolha diferentes experiências de vida. [7]

A enfermagem tem uma contribuição importante nesse processo. Na consulta, no acolhimento e nas atividades educativas, pode escutar dúvidas, identificar necessidades, orientar sobre sinais de alerta e ajudar a pessoa a seguir o cuidado na rede de saúde. Explicar cada procedimento, pedir consentimento e evitar perguntas constrangedoras sem finalidade clínica são atitudes que favorecem uma relação de confiança.

As campanhas também são oportunidades para fortalecer hábitos que contribuem para a saúde, como praticar atividade física, manter uma alimentação saudável, não fumar e evitar bebidas alcoólicas. Essas orientações devem ser oferecidas sem culpabilizar quem adoece e sem prometer proteção absoluta contra o câncer. [6]

Em Lavras e em todo o país, a proposta é ampliar o alcance dessas mensagens: incluir diferentes identidades nos materiais educativos, preparar os serviços para recebê-las e garantir continuidade ao atendimento para além dos meses de campanha.

O Outubro Rosa e o Novembro Azul podem deixar um compromisso que dure o ano inteiro: nenhuma pessoa deve precisar esconder quem é para conseguir cuidar da própria saúde. Conscientizar é informar com responsabilidade, combater o preconceito e transformar o direito ao cuidado em uma experiência de respeito e acolhimento.

Cuidar Juliano Gabriel

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