Por: Marco Bissoli
Nunca fui santo. Seminarista sim, com orgulho. Franciscano. Era janeiro de 1992. Bem mais magro que agora, eu colhia não a última, mas as muitas flores no Lácio da juventude.
Para chegar à pacata Andrelândia (MG), destino final daquele jovem de 20 anos (que agora olho através do retrovisor), empreendi um tour de force.
As últimas chuvas de verão daquele ano haviam deixado um cenário de guerra em Lavras. Queda de barreiras nas estradas. A ponte de Ribeirão Vermelho encoberta pelas águas do Rio Grande. Desabrigados. Caos.
Com mais dois companheiros de viagem segui rumo ao seminário. Cruzamos estradas pegando carona nos caminhões de leite. A poeira, como disse o poeta, era nossa vitamina.
De repente, chegamos. Casa gigantesca. Dormitórios, refeitório, biblioteca, quadra e campo de futebol. Uma estrutura construída para suportar o peso dos hormônios que pipocavam de um bando de jovens vindos de todos lugares.
A capela era um caso à parte. A luz matinal que cortava seus vitrais pela manhã fazia a velha Sistina parecer coisa de criança. Viver às vezes comove.
Para um jovem urbano, o seminário era um lugar (quase) paradisíaco. Só que não.
Havia disciplina, trabalho & estudos. Zilhões de descobertas sobre si mesmo, sobre o outro. Colisões inevitáveis, claro. Quebra de expectativas. Crescimento.
Deixei a comunidade quase um ano depois de entrar pela porta da frente, pois a vida, essa sereia sacana, voltava a me seduzir com seu canto. Agora ele vinha do lado de fora daqueles muros.
Ser religioso não é para qualquer um. É preciso vocação. Eu não tive para sê-lo. Recusei o chamado. Dizer não dói, mas enobrece. Paciência. Titio Freud com certeza me entenderia.
Mais de três décadas depois, neste setembro de 2025, volto a este local para uma rara visita. Já não sou o mesmo homem, nem o seminário o é. A casa de formação hoje fica em Petrópolis (RJ).
A antiga propriedade não virou um retrato na parede. Permanece de pé. Uma parte dela virou um singelo Eremitério Franciscano.
Depois de um rolê contemplativo, a constatação: o seminário e tudo que vivi ali parecem agora bem maiores do que eram.
Não em tamanho, mas em importância para mim.
Na antiga capela não há mais os pesados bancos, mas beleza e silêncio reinam majestosos. A juventude me volta à boca. Agridoce.
Uma breve paúra se anuncia solene.
Faço minha oração. Peço perdão ao Todo Poderoso pelo menino arteiro que fui e com certeza continuarei a ser. Pecados. Quem nunca?
Neste momento vejo a imagem marota do velho poeta italiano dos Vales da Úmbria, Francisco de Assis, que do altar parece me dar uma piscadela de cumplicidade.
Sorrio.
















