quarta-feira , 16 setembro 2026
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Morre Patricio Guzmán, um dos principais diretores de cinema do Chile, aos 85 anos

O cineasta chileno Patricio Guzmán, em 2012, em São Paulo – Karime Xavier – 5.jul.12/Folhapress

Patricio Guzmán, um dos principais documentaristas políticos do Chile e da América Latina, morreu na manhã desta terça-feira (15), aos 85 anos. Autor do aclamado documentário em três partes “A Batalha do Chile”, lançado de 1975 a 1979, ele sofreu uma parada cardiorrespiratória em um hospital em Paris, segundo o portal Cooperativa. Fontes próximas ao cineasta afirmam que ele tratava uma doença há três anos.

Guzmán retratou a esperança e as tensões políticas do seu país nos anos 1970, falando sobre o governo de Salvador Allende e sua derrubada pelo golpe militar que pôs o general Augusto Pinochet no poder.

Com filmagens feitas no calor da hora, em que se sobrepõem o tom panfletário e a urgência e obstinação em testemunhar a convulsão em Santiago, seu trabalho registrou a derrocada democrática em tempo real.

Guzmán foi preso logo após o golpe. Conseguiu ser liberado após duas semanas detido no Estádio Nacional de Santiago, onde sofreu interrogatórios e forte pressão psicológica. Partiu, então, para o exílio com as dezenas de horas de material rodado na capital chilena.

Em Cuba, pôde montar as três partes, e as duas primeiras foram apresentadas no Festival de Cannes —o festival francês, depois, exibiria a maioria de suas obras seguintes. Ainda no exílio, seguiu fazendo seus filmes, como “Em Nome de Deus”, de 1987, sobre o papel da Igreja Católica chilena diante da ditadura.

Vivendo entre Cuba, Espanha e França, Guzmán nunca voltaria a morar em seu país, ainda que a cultura e a política tenham continuado a dominar as reflexões de suas obras. Ao longo da carreira, com sua voz pausada e mirada poética, voltaria constantemente a investigar a ditadura de Pinochet e a preservar a memória de um país marcado pela violência política.

“O documentário é uma rede que você lança e da qual tira aquilo que lhe interessa. Graças a esse exercício, é possível mostrar o estado de espírito de um país”, afirmou o cineasta há alguns anos.

Nascido em Santiago, em 1941, em uma família modesta, cursou filosofia, mas acabou abandonando os estudos para trabalhar na área da publicidade, onde descobriu o mundo audiovisual. No fim da década de 1960, usou todas as suas economias para viajar a Madri e estudar cinema.

“Todo criador tem um tema obsessivo, que o preenche. Para alguns, é uma cidade, uma pessoa; para mim, é a memória deste país. Não consigo avançar sem recorrer a ela. É minha vantagem e minha limitação”, afirmou o diretor.

Não raro, aproveitou a própria paisagem chilena para fazer essas reflexões. Em “Nostalgia da Luz”, de 2010, interligou os cientistas que observam as estrelas no deserto do Atacama, no norte do Chile, e as mães que revolvem a terra árida em busca dos restos mortais de seus familiares desaparecidos. “O golpe foi um choque tão grande que produziu uma paralisia mental”, afirmou o cineasta à Folha, no lançamento do filme.

Depois fez “O Botão de Pérola”, de 2015, em que viajou ao sul do país e voltou a recorrer à metáfora, desta vez por meio do mar, para dar voz aos povos indígenas da Patagônia. “É preciso filmar a sociedade e seus problemas sociais, políticos e ideológicos, mas do ponto de vista de um poeta. Se você não fizer isso com senso cinematográfico, o resultado será um panfleto ou um filme que durará muito pouco tempo”, comentou o cineasta.

Já em “A Cordilheira dos Sonhos”, de 2019, explorou os Andes como testemunha imutável dos anos de repressão. Por fim, “Meu País Imaginário”, de 2022, seu último trabalho, mirou o futuro do país, registrando os protestos que tomaram as ruas de Santiago, em 2019, com exigências por mais igualdade social nas áreas da educação, saúde e emprego.

“Um país que não tem cinema documental é como uma família sem álbum de família”, costumava dizer.

Ao longo dos anos, recebeu o Urso de Prata do Festival de Berlim pelo roteiro de “O Botão de Pérola”, e o prêmio Goya e o Olho de Ouro de Cannes por “A Cordilheira dos Sonhos”.

Em 1997, fundou o Festival Internacional de Documentários de Santiago, o Fidocs, dedicado ao cinema documental. Há três, recebeu o Prêmio Nacional de Artes da Representação e Audiovisuais, a principal distinção cultural do Chile na área.

A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece de 15 a 29 de outubro, exibirá cópias restauradas inéditas de “O Primeiro Ano”, seu primeiro documentário, de 1972 —sobre o início do governo Allende— e das três partes de “A Batalha do Chile”.

Fonte: Folha de SP/Com AFP

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