Nesta série, apresentamos alguns Mestres da Cultura Popular de Lavras.
Por Giselle, presidente do Instituto Phos.
Há mais de duas décadas, Mestre Júlio constrói uma trajetória marcada pelo compromisso com a cultura afro-brasileira e pela atuação direta em territórios de vulnerabilidade em Lavras. Fundador da Escola de Capoeira Despertar, sediada no bairro Água Limpa, ele se firmou como uma referência local ao transformar a capoeira em instrumento contínuo de formação cultural, inclusão social e fortalecimento comunitário.
A caminhada teve início no ano 2000, quando passou a frequentar rodas e encontros em diferentes cidades da região, iniciando um processo formativo que se consolidaria ao longo dos anos. Em 2016, já com ampla experiência, fundou a Escola de Capoeira Despertar com o propósito de oferecer atividades gratuitas voltadas, sobretudo, a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. O primeiro batizado, realizado em 2017, marcou a consolidação do trabalho no bairro e deu início a uma atuação contínua, que se expandiu com o tempo para jovens e adultos. Em 2024, recebeu o título de Mestre de Capoeira, reconhecimento do amadurecimento de sua trajetória e da relevância de sua atuação.
No cotidiano da escola, o trabalho se estrutura a partir de aulas regulares realizadas três vezes por semana. As atividades acontecem em um espaço comunitário mantido pelo próprio mestre, que também abriga um terreiro de Umbanda, fortalecendo a preservação de saberes tradicionais de matriz africana.

A metodologia adotada integra diferentes vertentes da capoeira — Angola, Regional, Benguela e Miudinho — ao ensino da musicalidade, com instrumentos como berimbau, atabaque, pandeiro e agogô, além de cantos tradicionais que compõem o patrimônio cultural reconhecido no país.
Além das aulas, Mestre Júlio organiza rodas abertas ao público, reunindo participantes em espaços como a Praça Augusto Silva e escolas públicas. Ao longo do ano, também realiza apresentações culturais em cidades da região, como Luminárias, Carmo da Cachoeira e Nazareno, ampliando a circulação da cultura afro-brasileira.
O impacto desse trabalho se reflete diretamente na comunidade do Água Limpa, onde o acesso a atividades culturais é limitado. Ao longo da trajetória, aproximadamente 500 alunos já passaram pela escola, encontrando na capoeira não apenas uma prática corporal, mas um espaço de convivência, pertencimento e formação cidadã. A iniciativa também fortalece vínculos familiares e comunitários, promovendo a participação ativa de moradores nas atividades e eventos.

A atuação de Mestre Júlio dialoga ainda com a área da educação, por meio de ações em escolas públicas, especialmente em atividades ligadas à Consciência Negra. Nessas ocasiões, a capoeira é apresentada como ferramenta pedagógica, contribuindo para a educação das relações étnico-raciais e para a ampliação do repertório cultural dos estudantes.
Voltado prioritariamente a crianças, adolescentes e jovens de famílias de baixa renda, o trabalho é integralmente gratuito e adota estratégias que garantem a permanência dos alunos, como o empréstimo de instrumentos e a flexibilização de horários. Dessa forma, a escola atua diretamente na redução das desigualdades de acesso à cultura, promovendo inclusão social e valorização da identidade afro-brasileira.
Ao longo dos anos, Mestre Júlio consolidou sua atuação como agente cultural no território, articulando tradição e transformação social. Sua trajetória evidencia o papel da capoeira não apenas como expressão cultural, mas como ferramenta concreta de formação, resistência e construção de cidadania em Lavras.

















