Levantamento mostra estratégias distintas de campanha: candidato do PL prioriza publicidade digital, enquanto presidente concentra mais recursos em materiais gráficos.
Os gastos declarados à Justiça Eleitoral por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) revelam estratégias diferentes para a disputa presidencial nas redes sociais. O senador investiu quase três vezes mais que o presidente na contratação de impulsionamentos de publicações nas plataformas da Meta, responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp.
Segundo levantamento publicado pelo jornal O TEMPO, Flávio Bolsonaro declarou R$ 7,4 milhões em despesas com impulsionamento de conteúdo, enquanto Lula informou gastos de R$ 2,5 milhões.
A diferença se inverte quando o foco são os serviços gráficos. O presidente declarou aproximadamente R$ 5,2 milhões em despesas com empresas do setor, contra R$ 2,8 milhões informados pelo adversário.
Os números mostram diferenças na distribuição dos investimentos de campanha e evidenciam o desafio enfrentado pelo PT para ampliar sua presença digital e disputar o engajamento nas plataformas.
Direita tem mais seguidores e interações
Um levantamento realizado por Matheus Soares e Gabriel Ziviani, da equipe de dados de O TEMPO, com os 15 deputados mais votados da direita e os 15 mais votados da esquerda, aponta vantagem dos parlamentares conservadores nas redes sociais.
Somadas, as contas informadas à Justiça Eleitoral pelos parlamentares de direita reúnem cerca de 46 milhões de seguidores, contra aproximadamente 19 milhões nas contas dos representantes da esquerda.
A diferença também aparece no engajamento. Considerando as publicações feitas no mês anterior às eleições, os parlamentares de esquerda produziram mais conteúdo, mas registraram menos interações: foram aproximadamente 27 milhões, contra 69 milhões nas postagens da direita.
Para a deputada federal eleita Ana Elisa (PT), a influência das redes não pode ser descartada sob o argumento de que curtidas não representam necessariamente votos.
“Like não é voto. Eu ouvi isso quando me convidaram para filiar ao PT e entrar na disputa. Tudo bem, like não é voto. Mas eles não conseguem compreender que redes sociais são tanto quanto um território físico”, afirmou.
Lula resiste à exposição nas redes sociais
A tentativa de ampliar a presença digital do presidente encontra resistência do próprio Lula. Durante encontro com integrantes do PT em Brasília, no dia 7 de outubro, ele reconheceu que é pressionado por auxiliares a publicar mais conteúdo e interagir com o público nas plataformas.
O presidente admitiu, porém, que prefere o contato direto com a população e não demonstra entusiasmo com a produção constante de conteúdo digital.
“Eu queria pedir desculpa para quem fala que eu tenho que ficar nas redes. Pedir desculpa para a Janja, para o Sidônio… O pessoal me enche o saco. Eu tenho que falar nas redes, no celular. Eu não uso celular porque tenho a mão para fazer outras coisas. Eu gosto de falar só o essencial. Mas o pessoal me enche o saco. ‘Faz uma selfie’, eu não gosto”, declarou.
Para Rodrigo Bueno, consultor político e fundador da Deja Estratégia, o desafio não é modificar a identidade política de Lula, mas adaptar sua comunicação à linguagem das plataformas digitais.
Segundo ele, a campanha precisa investir em histórias concretas, personagens reconhecíveis, emoção e conteúdos capazes de transformar realizações do governo em assuntos de interesse público.
Aliados defendem mudança na comunicação petista
A disputa por espaço nas redes também mobiliza aliados do presidente. Pedro Rousseff (PT), vereador de Belo Horizonte eleito deputado federal, participou de um encontro com Lula após o primeiro turno para discutir propostas de comunicação para a campanha.
Rousseff defende que o PT abandone uma postura excessivamente institucional e concentre sua comunicação em assuntos diretamente relacionados ao cotidiano da população.
Na avaliação dele, três temas precisam ganhar prioridade: preço dos alimentos, custo dos combustíveis e segurança pública.
O parlamentar considera que essas questões vêm sendo exploradas por Flávio Bolsonaro e exigem respostas mais objetivas da campanha petista.
“Parece que o nosso governo virou o governo das pequenas causas. São pautas que ninguém se importa. Enquanto, na verdade, o outro lado, eles estão passando a imagem de que são a mudança”, afirmou.
Disputa também chega aos canais do WhatsApp
O deputado federal reeleito André Janones (Rede) também passou a atuar na mobilização digital em apoio a Lula.
Antes da implantação de um novo canal planejado pela campanha presidencial, chamado “Rede do Futuro”, Janones lançou o “Exército do Lula”, utilizando uma linguagem semelhante à de grupos políticos de direita.
A iniciativa registrou crescimento expressivo. Enquanto o canal oficial do presidente no WhatsApp reunia aproximadamente 300 mil seguidores, o “Exército do Lula” ultrapassou 2,5 milhões em apenas dois dias.
A mobilização provocou questionamentos judiciais e chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), gerando divergências entre ministros da Corte.
Do lado da direita, também surgiram iniciativas de mobilização digital, como a “Tropa do Cleitinho”, em Minas Gerais, o “Bloco do 22”, associado ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL), e a “Tropa do Flávio”, criada em resposta à mobilização dos apoiadores de Lula.
Os movimentos mostram que a disputa presidencial não se limita à propaganda tradicional. Além dos recursos financeiros, a capacidade de mobilizar seguidores, produzir conteúdos e gerar interações nas plataformas digitais tornou-se um dos principais elementos das estratégias eleitorais.
Fonte: O TEMPO, com informações de gastos declarados à Justiça Eleitoral e levantamento da equipe de dados do jornal.
















