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Entrevista: Grupo Galpão, o teatro como arte da presença e da resistência

As atrizes e diretoras Simone Ordones e Lydia Del Picchia, integrantes do Grupo Galpão, conversaram com a reportagem do Curta Lavras sobre o espetáculo “De Tempo Somos – Um Sarau do Grupo Galpão”, a trajetória de 43 anos do coletivo mineiro e, os desafios do teatro contemporâneo.

Por: Marco Bissoli

LAVRAS – Às vésperas da apresentação do espetáculo “De Tempo Somos – Um Sarau do Grupo Galpão”, as atrizes e diretoras Simone Ordones e Lydia Del Picchia, além do ator Luiz Rocha, receberam a reportagem do Curta Lavras em um hotel da cidade para uma conversa sobre memória, criação artística, os desafios do teatro contemporâneo e a trajetória de um dos grupos mais importantes da cena cultural brasileira.

Com 43 anos de história, o Grupo Galpão chega a Lavras dentro da programação do TRUPI – Festival Itinerante de Artes Cênicas, promovido pelo Sistema Fecomércio MG, por meio do Sesc em Minas. O espetáculo reúne música, teatro e memórias em um sarau que revisita diferentes momentos da trajetória do grupo, sem perder de vista o presente e os caminhos para o futuro.

“De Tempo Somos” passeia por diferentes momentos da história do Grupo Galpão. Como foi o processo de selecionar as canções e memórias que integram esse sarau?

Lydia Del Picchia – O espetáculo nasceu sob uma perspectiva coletiva do grupo, cujo elenco está junto há cerca de 30 anos. Todos nós passamos por esse repertório. As canções dos espetáculos estão nas nossas células. Não queríamos contar a história do grupo de forma cronológica. Foi uma escolha afetiva, que transita por uma linguagem poética e pela nossa própria história.

Simone Ordones – Os atores cantam e tocam em cena. Essa sempre foi uma marca do grupo. Foi difícil fazer uma seleção, porque o repertório é muito vasto, mas havia uma estrutura. O espetáculo aborda o tempo e o ofício do ator, e o público acaba sendo seduzido por esses temas.

A apresentação gratuita integra a programação do TRUPI – Festival Itinerante de Artes Cênicas e celebra a trajetória de 43 anos de um dos mais importantes grupos teatrais do país.

O espetáculo revisita o passado, mas também aponta para o futuro. O que ele revela sobre o Grupo Galpão de hoje?

Simone Ordones – A gente vive no tempo presente. Trabalhamos de forma coletiva e em um processo contínuo. Estamos sempre prospectando o próximo espetáculo. Estar no presente também é pensar o futuro. Esse foi um espetáculo que foi se revelando para nós. Queríamos algo mais despojado, um sarau, onde pudéssemos receber o público como se estivesse na sala da nossa casa. Era essa experiência que gostaríamos de experimentar.

O espetáculo também incorporou novos formatos e linguagens ao longo desses 12 anos?

Luiz Rocha – Eventualmente conseguimos colocar coisas novas no espetáculo. Ele tem uma estrutura muito móvel e é construído por climas. No Festival de Cinema de Tiradentes, por exemplo, tocamos várias canções que não faziam parte da montagem original, porque a ocasião pedia isso. O espetáculo tem essa característica híbrida.

“Em um mundo cada vez mais virtual, o teatro se coloca como a arte da presença. Isso é mágico e está cada vez mais raro”, destaca Simone Ordones, do Grupo Galpão.

Simone Ordones – Outra questão são os espaços onde nos apresentamos. Esse é um espetáculo que nasceu para ser feito no teatro, mas acabou sendo levado para a rua. E deu muito certo. Já o apresentamos até em uma praça no México. Ele acabou se tornando o nosso espetáculo coringa.

Em um mundo cada vez mais acelerado, com excesso de informação e narrativas fragmentadas, como é fazer teatro hoje?

Simone Ordones – O teatro também adapta suas narrativas ao mundo contemporâneo. Nossa última montagem, Um Ensaio sobre a Cegueira, tinha cerca de duas horas e meia. A arte mais generosa é o teatro. Em um mundo cada vez mais virtual, ele se coloca como a arte da presença. Isso é mágico e está cada vez mais raro.

Lydia Del Picchia – Dizem que o teatro acabou desde que ele nasceu. Já disseram que o rádio, a televisão, o cinema, o celular e a internet acabariam com o teatro. E isso nunca aconteceu. Depois da pandemia, vimos a energia das plateias. As pessoas estavam sedentas por esse encontro.

Mas está muito difícil fazer teatro para quem está começando. Quando estreamos, em 1981, precisávamos construir uma longa trajetória. Levamos cerca de dez anos para alcançar reconhecimento nacional. Quando Romeu e Julieta estreou, ainda tínhamos dívidas que demoraram anos para ser pagas.

A atriz Teuda Bara, um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro e integrante histórica do Grupo Galpão, faleceu neste ano, aos 84 anos.

Hoje parece que investir em um coletivo dessa forma está fora das perspectivas das pessoas. Existe uma expectativa de que o sucesso aconteça rapidamente. Tudo precisa dar certo agora. O novo tem pouco espaço, e mesmo grupos com longa trajetória seguem lutando diariamente para sobreviver. Nós somos um milagre por manter essa estrutura há tanto tempo.

Este é um ano marcado pela despedida de Teuda Bara. Como o grupo tem vivido esse momento?

Simone Ordones – Tivemos o privilégio de compartilhar uma parte da vida dela. Teuda sempre foi uma inspiração para nós. Ela era tão viva que continuamos falando dela no tempo presente. É uma referência para todas as mulheres do grupo. Era uma mulher destemida, que fazia aquilo em que acreditava e lutava pelo que queria.

Lydia Del Picchia – Teuda viveu mais do que 84 anos. Ela viveu uns 200 anos intensamente. Era uma pessoa apaixonada pelo teatro. Para nós, ela é uma espécie de Pachamama, a Mãe Terra. Uma força vital, uma presença que continua nos acompanhando.

“Nós somos um milagre por manter essa estrutura há tanto tempo”, afirma Lydia Del Picchia ao refletir sobre os desafios de manter um grupo de teatro por mais de quatro décadas.

Como é voltar ao interior de Minas Gerais para se apresentar?

Lydia Del Picchia – Nós viajamos o Brasil inteiro e também passamos por vários países. Voltar ao interior é sempre uma forma de voltar para Minas Gerais. Os interiores têm algo em comum. Como começamos na rua e viajávamos com nossa própria estrutura, aprendemos a abrir o coração para as pessoas. Temos a sorte de viver isso todos os dias.

Qual a importância dos festivais e projetos itinerantes para democratizar o acesso à cultura?

Lydia Del Picchia– A arte precisa circular pelo Brasil. Por isso, iniciativas como essa do Sesc são tão importantes. É uma alegria estar aqui, encontrar as pessoas, ver a cidade ocupada pela cultura e compartilhar nosso trabalho. Temos muita gratidão por estar hoje em Lavras como artistas e por fazer parte desse encontro.

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