Novo grafite valoriza a trajetória de uma das principais personalidades negras de Lavras, cuja atuação foi decisiva para a preservação da Igreja do Rosário.
Por Giselle, presidente do Instituto Phos
O Camugerê – Centro de Preservação da Cultura Afro-Brasileira, em Lavras, incorporou ao seu acervo um grafite em homenagem ao professor José Luiz de Mesquita (1887–1967). A iniciativa do Mestre Rogério, responsável pelo espaço, busca dar visibilidade ao legado do educador e apresentar sua história às novas gerações.
A obra integra um conjunto de pinturas que transforma as paredes do Camugerê em uma narrativa sobre a diáspora africana, a resistência da população negra e suas contribuições à formação cultural do Brasil.
Da diáspora africana à resistência cultural
O percurso visual começa no continente africano e retrata pessoas escravizadas, acorrentadas durante a travessia do Atlântico em navios negreiros. Tubarões simbolizam as mortes ocorridas no percurso e os corpos lançados ao mar. As pinturas também apresentam aspectos da vida da população escravizada nas fazendas brasileiras.
Entre as manifestações culturais representadas estão o Maculelê, associado à tradição de um homem negro que teria defendido uma aldeia indígena, e a Capoeira, expressão de resistência afro-brasileira. Mestre Bimba e Mestre Pastinha, referências fundamentais dessa manifestação, também são homenageados.
Em outro painel, a história afro-brasileira se encontra com símbolos de Lavras. A pintura retrata a Praça Iúna, idealizada pelo Camugerê, e a ave iúna, associada à Capoeira. O espaço é apresentado como lugar de convivência entre descendentes das matrizes indígena, africana e europeia que formaram o povo brasileiro. Os ipês, símbolos da paisagem lavrense, completam a composição.

José Luiz de Mesquita e a Igreja do Rosário
Nesse cenário, o professor José Luiz de Mesquita aparece segurando a chave da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, com o templo ao fundo. A imagem remete à atuação do educador para impedir a demolição da antiga Igreja Matriz de Lavras, ameaçada na década de 1940.
Mesquita mobilizou esforços e buscou a proteção do imóvel junto aos órgãos de patrimônio histórico, contribuindo para preservar um dos marcos da memória da cidade.
Educação, música e participação comunitária
José Luiz de Mesquita deixou contribuições que vão além da preservação do patrimônio. Educador, jornalista, músico e liderança comunitária, dedicou-se ao ensino de milhares de lavrenses em uma época marcada por profundas desigualdades sociais e raciais.
Participou da fundação da Corporação Musical Euterpe Operária, conhecida como A Furiosa, e da criação do Crisântemo Clube, importante espaço de organização e convivência da população negra. Fundou o jornal O Operário e esteve entre os fundadores da União de Moços Católicos e da Conferência de São Vicente de Paulo em Lavras, instituição na qual exerceu funções de direção durante muitos anos.
Memória negra para as próximas gerações
Para o Mestre Rogério, José Luiz de Mesquita está entre as maiores referências negras da história de Lavras. Ao incluí-lo em seu acervo, o Camugerê reafirma que preservar a cultura afro-brasileira também significa reconhecer as pessoas que ajudaram a construir a história do município, mesmo diante do racismo e da exclusão de seu tempo.
A partir de agora, quem visitar o espaço poderá conhecer a história da diáspora africana, das manifestações culturais afro-brasileiras e a trajetória de um educador negro que marcou a vida de Lavras. A homenagem transforma a arte em instrumento de memória e reconhecimento.
















