O arquiteto urbanista e paisagista lavrense Carlos Fernando de Moura Delphim prestou uma homenagem ao seu irmão, o museólogo e professor Ângelo Alberto de Moura Delphin, falecido no último dia 15, aos 83 anos.
Leia a íntegra do texto:
MEU IRMÃO ÂNGELO ALBERTO DE MOURA DELPHIM
Era dois anos mais velho que eu. Me lembro bem dele, a não ser a partir de quatro anos quando fui hospitalizado por causa de uma extração de amígdalas, quando ele me levou uma joaninha de presente no hospital. Eu estava muito sensível e me pus a chorar e ele pensou que fosse porque eu não quisesse ou não gostara do presente. Pelo contrário, nunca recebi nada mais régio e delicado. Eu fazia muitas travessuras e apanhava por isso, mas já estava acostumado. Um dia eu o vi apanhando e fiquei tão triste, queria que fosse comigo, que já estava acostumado.
Ele era mais gordinho e eu muito magro. Lembro-me que ele gostava de me ver fazer artes e que me protegia se descobrissem. Brincávamos de mocinho e bandido e, como eu gritava muito agudo, tinha de desempenhar, a contragosto, o papel de mocinha só para que ele me amordaçasse.
Anteontem pela manhã eu fui com o jardineiro à casa da família, onde ele morava com minha irmã, para fazer um jardim só de flores para passarinhos, beija-flores, borboletas e outras joias voadoras. Depois o jardineiro me confidenciou que, toda vez que se mexe no jardim de alguém doente, a pessoa morre. Realmente, ele faleceu logo após o almoço.
Hoje o dia amanheceu envolto em brumas e chuvoso. A cidade parecia estar chorando, não se via nada além das brumas. Assim permaneceu até agora, quando a noite vem caindo. O jardineiro veio buscar-me para ir ao velório, bem cedo pela manhã. Então ele me disse que meu irmão tinha ido para o céu. Perguntei-lhe porquê e ele me disse que quando morre um homem bom, os céus choram na terra e se alegram no céu.
A julgar pela infinidade de manifestações lamentando sua morte, de pessoas que recordavam o que fez de bem à cidade, às universidades lavrenses, seus dirigentes, funcionários e alunos, qualquer um poderia ver a comprovação de que ele era um espírito superior. Sua generosidade era notória, desde criança cuidava dos pobres. As crianças o adoravam e iam com ele sem estranhar. Ele alimentava os cachorros da rua, os pássaros, organizava coletas de mantimentos e esmolas para asilos que visitava, aproximava-se com carinho dos necessitados.
Não media o tempo dispendido mostrando a quem visitava o museu que dirigia, prestando informações aos visitantes. Conhecia toda a genealogia dos lavrenses, informava as relações entre as famílias da cidade e da região, o que criava laços mais estreitos entre seus conhecidos. Recebia visitas durante todo o dia e à noite. Comprava com seu dinheiro, peças para seu grande projeto, um centro como um museu rural, um sonho que tinha e que não podemos deixar morrer.
Lavras ficou desolada com sua partida, porém, ele se livrou de grandes sofrimentos dos quais nunca se queixou, o que nos serve de consolo. Ângelo, um anjo, deixa o mundo terreno, retornando às alturas celestiais. Que Deus o receba como um filho amado.
Lavras, 16 de abril de 2025
Carlos Fernando de Moura Delphim
















