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Flávio Bolsonaro se declara “presidente eleito” e diz que liderará oposição dos EUA

O senador Flávio Bolsonaro ao desembarcar em Brasília no domingo (25), após votar no Rio de Janeiro – Pedro Ladeira – 25.out.26/Folhapress.

O senador Flávio Bolsonaro se disse “presidente eleito” do Brasil após fugir para os Estados Unidos nesta quarta-feira (28), segundo carta com tom golpista divulgada por seus aliados e atribuída ao candidato do PL derrotado nas urnas para Lula (PT) no último domingo (25).

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, afirmou. O comunicado foi distribuído oficialmente por aliados da família Bolsonaro nos EUA, entre eles o comentarista político Paulo Figueiredo e o ex-policial militar André Porciuncula.

Em uma primeira versão, a carta foi divulgada com o antigo brasão do Brasil, vigente entre 1889 e 1968. Na sequência, aliados compartilharam um novo documento com o brasão correto.

Brasão antigo escrito “Estados Unidos do Brazil”, vigente de 1889 até 1968, que foi divulgado em declaração golpista de Flávio Bolsonaro. Reprodução de nota emitida por Paulo Figueiredo em nome de Flávio Bolsonaro.

Flávio desembarcou em Miami nesta quarta após deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina e embarcar em um avião privado que fez escala no Equador. A viagem ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinar a entrega de seus passaportes no âmbito de uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro. O senador nega irregularidades.

O senador Flávio Bolsonaro ao desembarcar em Brasília no domingo (25), após votar no Rio de Janeiro. Pedro Ladeira/Folhapress.

A declaração golpista representa uma reviravolta, já que o senador afirmou, na véspera, que desistiria de anular a eleição e que não iria fugir do país. Integrantes da cúpula da campanha afirmam que tentaram convencê-lo, na segunda, a recuar da declaração do domingo, de que não aceitaria a derrota nas urnas.

Aparentemente, na segunda, Flávio havia seguido o conselho dos aliados mais moderados, que se disseram surpresos com a fuga para os Estados Unidos.

No pronunciamento, o senador afirmou que não pretendia deixar o país, mas que decidiu viajar para escapar do que descreveu como uma perseguição política. “Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece”, disse.

Ele confirmou que está acompanhado da família nos Estados Unidos e agradeceu a Trump e ao governo americano por oferecerem, segundo suas palavras, uma segurança jurídica que não existe mais no Brasil.

“Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança”, afirmou.

O presidente americano disse na noite de terça-feira (27) que aprovaria a entrada do senador nos Estados Unidos, apesar de afirmar que não sabia seu paradeiro. Uma autoridade do Departamento de Estado confirmou à Folha que o governo americano concederia vistos a Flávio e seus familiares.

O candidato derrotado também agradeceu ao presidente argentino, Javier Milei, pela “coragem, senso de justiça e legalidade”. O senador passou pela Argentina antes de seguir para os Estados Unidos.

Segundo a carta, o senador anuncia que pretende liderar a oposição brasileira do exterior e volta a dizer, sem provas, que houve fraude na eleição de domingo. Ele também critica o STF (Supremo Tribunal Federal) e agradece ao presidente americano, Donald Trump, por acolher sua família no país.

Ao contestar novamente o resultado das urnas, Flávio concentrou suas críticas na decisão judicial que permitiu a ampliação do horário de votação no segundo turno. Ele acusou o STF de interferir nas competências do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e afirmou que a mudança teria beneficiado Lula.

“A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, declarou.

O crescimento do número de votos recebidos por um candidato entre dois turnos, porém, não configura evidência de fraude eleitoral.

Flávio também acusou a campanha de Lula de abuso de poder político e econômico, além de utilização da máquina pública em favor da reeleição, e afirmou que essas supostas irregularidades justificariam a cassação da chapa Lula-Alckmin. Ele não apresentou provas das acusações no pronunciamento.

O senador dedicou parte do discurso a atacar o Judiciário, que acusou de atuar para silenciar a oposição. Sem citar nominalmente Alexandre de Moraes, fez referências ao magistrado e afirmou que as medidas judiciais adotadas contra ele fazem parte de um suposto plano de perseguição política.

“Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada”, afirmou.

Flávio disse acreditar que a apreensão de seus passaportes seria apenas o primeiro passo de uma sequência de medidas que poderia incluir tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar e condenação judicial.

A decisão de Moraes determinou a entrega dos documentos em uma investigação que envolve a relação do senador com o advogado Willer Tomaz. A medida não equivale a uma ordem de prisão.

Ao justificar sua decisão de permanecer fora do Brasil, Flávio estabeleceu paralelos com personalidades históricas e líderes políticos que atuaram no exílio, entre eles Rui Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí e os opositores venezuelanos Juan Guaidó e Edmundo González.

O senador também afirmou que pretende assumir a liderança da oposição brasileira a partir dos Estados Unidos e fez um apelo direto a parlamentares e governadores aliados, com menção especial ao senador Rogério Marinho (PL-RN), a quem chamou de seu candidato à presidência do Senado.

“Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, afirmou.

O discurso indica que Flávio pretende manter uma atuação política ativa mesmo fora do território brasileiro, com pronunciamentos regulares e articulação de aliados.

“Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos”, disse.

O senador não detalhou quais seriam as medidas dessa estratégia nem esclareceu se pretende solicitar asilo político aos Estados Unidos. Também não estabeleceu uma previsão de retorno ao Brasil.

No encerramento, afirmou que sua saída do país não representa o fim de sua atuação política.

“Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre.”

Fonte: Folha de S.Paulo

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