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Lobão diz que agora aposta nos discos voadores após desilusão política

O cantor e compositor Lobão em sua casa na zona sul de São Paulo

Lobão conta que preferia cantar “O Tempo Não Para”, mas aceitou a sugestão de “Ideologia” pelo “bom andamento do serviço” e para não ser “aquele cara difícil”. Na homenagem que será feita a Cazuza no festival, ele também cantará “Vida Louca Vida”, esta, sim, uma música que afirma ter despertado a sua emoção. “Achei comovente porque é uma faixa que muita gente acha que foi composta por ele, mas é minha.” No mesmo evento, Lobão se apresentará ainda com Marina Lima, que considera a sua madrinha artística.

Questionado se está numa fase mais calma para não ser tachado como “aquele cara difícil”, o roqueiro diz que sempre foi “muito calmo”, mas aprendeu a preservar a sua essência. “Detesto me sentir caricaturado. Não vou ficar de fantoche de manchete de jornal, como sempre fui.”

Ele revela que agora avalia se a sua opinião tem de fato algo que possa provocar alguma mudança. Em caso negativo, se for apenas para gerar “fofoca ou especulação”, diz que não dará mais a “cara a tapa para ficar no meio do tiroteio de um monte de gente maluca”. Na visão do músico, a sociedade está psicótica. “Não estou a fim de participar disso.”

“Fora que fui de uma época em que ser irreverente era super excepcional. Hoje em dia todo mundo é assim. Nós somos muito ignorantes. Ninguém sabe porra nenhuma. Vamos dar menos opinião, fazer menos fofoca e cuidar mais da nossa vida.”

Também parece ter ficado no passado as alfinetadas em outros artistas ou estilos musicais. “Se eu estou produzindo, se estou no meu melhor momento, a música brasileira está esplendorosa”, diz, ao ser perguntado sobre o momento cultural atual. “Nunca quis briga com ninguém. As pessoas geralmente se ofendem, mas eu não fico: ‘Aee, vamos lá, vou sair na porrada’. Não sou isso, sabe? Me dou o direito de ser franco, mas sou educado.”

Em contraste com a desesperança com a política e com a humanidade, Lobão diz que “é naturalmente feliz”, daquele tipo que já acorda animado, para desespero de sua mulher, a empresária Regina Lopes. “Quando começamos a morar juntos, ela não entendia por que eu acordava alegre e dizia: a sua felicidade é insuportável”, conta, entre risos. “A gente tem momentos de perdas. Eu tenho um almoxarifado de tragédias na minha família, mas aprendi a lidar com isso.”

Paradoxalmente à imagem do roqueiro encrenqueiro que alimentou em anos recentes, Lobão afirma levar uma vida comum e ser um “excelente dono de casa”. “Faço cama, lavo louça, limpo tudo, dou soro e remédio para as minhas gatinhas que estão mais velhas, uma está com 23, a outra com 22.”

No dia em que recebeu a coluna em sua casa térrea, na Chácara Monte Alegre, um bairro residencial na zona sul de São Paulo, o tempo esfriou de repente. Lobão se animou. “À noite vou acender a lareira que elas [as gatas] adoram.” Ele também diz dar nome e conversar com suas plantinhas. “A maior é a Julieta”, revela, apontando para a árvore no jardim. “Faço essas coisas que são pequenas e que são para mim uma alegria.”

No espaço externo, há ainda uma espécie de altar com imagens de diferentes religiões: um São Francisco sentado em posição de buda, incensos, velas e uma estátua indiana. O local foi decorado pela mulher do músico. Lobão conta que acredita em Deus, mas não segue nenhuma religião. “Montei um autorama religioso na minha cabeça.”

O músico fala com entusiasmo sobre seus novos trabalhos. Um deles é “Incandescence”, ópera que desenvolve com o autor e diretor teatral Gerald Thomas. Os dois se conheceram quando Lobão apresentava o programa Saca Rolha, no início dos anos 2000, mas foi só em 2024 que, após trocarem mensagens pelo Instagram, se reencontraram em uma conversa pelo Zoom. “Batemos papo por quatro horas. A partir de então, não tem um dia que a gente não fique horas falando”, revela.

Muitas ideias para a ópera já foram aventadas. Uma delas —e que deve prosperar— é baseada em um romance que Lobão queria escrever e que tinha o título provisório de “O Diário do Demônio da Certeza”, sobre um homem que trabalha num almoxarifado e tem uma vida ordinária, mas quando dorme consegue se infiltrar na cabeça de presidentes de nações e líderes religiosos e instalar “certezas inabaláveis”. A ideia é que a ópera seja apresentada em outro país, mas com a possibilidade de ter um ensaio aberto para o público do Brasil.

Lobão também conta que está com um novo disco pronto, “Vale da Estranheza”, desenvolvido com 80% de viola caipira. Quer ainda voltar a escrever, mas não livros autobiográficos. “Estou com três temas interessantíssimos para romances. E tenho a maior vontade de escrever um livro infantil. Eu era um excelente contador de histórias para os meus enteados e para a minha filha.”

Fonte: Monica Bergamo/Folha de São Paulo

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