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Vicente Pinto Locha, 89 anos: o último mestre dos brinquedos de madeira

Prestes a completar 90 anos, Seu Vicente continua fazendo o que mais gosta: criar peças que carregam história, memória e afeto.

Poucos profissionais conseguem transformar uma paixão de infância em uma vida inteira de trabalho. Prestes a completar 90 anos no próximo ano, o artesão Vicente Pinto Locha continua ativo, produzindo peças que atravessaram gerações e levaram o nome de Lavras para diferentes cidades de Minas Gerais e do Brasil. São mais de 80 anos dedicados ao ofício, marcados pela criatividade, pelo talento e pelo amor ao trabalho manual.

Dos primeiros carrinhos de boi feitos na infância às centenas de peças espalhadas pelo Brasil, a madeira sempre foi a matéria-prima de uma história construída com talento, criatividade e dedicação.

Natural de Ribeirão Vermelho, Vicente Pinto Locha é casado com Sebastiana de Jesus Pinto e construiu uma família ao lado da esposa. É pai de Vicente, Iolanda, Dalva, Maria, Sandra e Andreia. Filho de Manuel Pinto Locha e Aldeia Barbosa, cresceu ao lado dos irmãos Walter, Aparecida, Cláudio e João, em um ambiente onde o trabalho sempre foi parte da rotina.

Cada peça produzida por Seu Vicente carrega mais do que habilidade artesanal: reúne memória, tradição, empreendedorismo e o encanto dos brinquedos feitos à mão que marcaram a infância de milhares de pessoas.

A história do artesão começou muito cedo. Aos sete anos de idade, já passava boa parte do tempo na pequena marcenaria montada pelo pai, nos fundos de casa. Foi ali que produziu seus primeiros carrinhos de boi de madeira, confeccionados para serem vendidos como lembranças de Natal. O que parecia apenas uma brincadeira infantil se transformaria na profissão que o acompanharia por toda a vida.

Seu pai, Manuel Pinto Locha, dividia os dias entre a profissão de ferroviário e a fabricação de móveis nas horas vagas. Em uma época de poucos recursos, o trabalho artesanal ajudava a complementar a renda da família, ensinando aos filhos o valor da dedicação, da criatividade e da perseverança.

Há mais de oito décadas, Seu Vicente transforma madeira em arte, criando brinquedos, peças decorativas e lembranças que atravessam gerações e mantêm viva uma das mais belas tradições do artesanato de Lavras.

Em busca de novas oportunidades, a família deixou Ribeirão Vermelho — carinhosamente chamada de “Red River” pelo próprio Vicente — e se estabeleceu em Lavras, no bairro Esplanada. Foi na cidade que o talento da família ganhou ainda mais reconhecimento, especialmente com a fabricação de porta-retratos personalizados com os nomes dos clientes, peças que fizeram grande sucesso e marcaram uma época.

Ao longo dos anos, Seu Vicente ampliou a produção, criando inúmeros brinquedos de madeira e outros artigos artesanais. Para vender as peças, percorria cidades de porta em porta e enfrentava longas viagens por destinos como Rio de Janeiro, Ouro Preto e São Lourenço. “A gente viajava em calhambeques”, recorda, entre risos.

Na memória permanecem os antigos automóveis que enfrentavam as estradas da época, como modelos Chevrolet de quatro portas e até um Fiat 147. Quase sempre viajava acompanhado de um filho ou de um ajudante, em jornadas que, segundo ele, eram verdadeiras aventuras.

Depois de tantas décadas, Vicente Pinto Locha já perdeu a conta de quantos brinquedos criou e fabricou. Inventivo, habilidoso e sempre disposto a experimentar novas ideias, tornou-se uma espécie de Professor Pardal da vida real, aliando criatividade ao espírito empreendedor de um autêntico caixeiro-viajante. Suas peças encantaram milhares de pessoas e ajudaram a divulgar o nome de Lavras por diversas regiões do país.

Entre serras, formões e muita imaginação, artesão fez dos brinquedos de madeira um legado de afeto, levando suas criações de Lavras para cidades mineiras e diferentes regiões do país.

Mesmo às portas dos 90 anos, Seu Vicente continua fazendo o que mais gosta. A satisfação permanece a mesma de quando produziu seus primeiros carrinhos de madeira ainda na infância.

“Tudo que eu quis fazer, eu fiz. Só tenho a agradecer a Deus pelo que vivi. Cada brinquedo fabricado é uma satisfação que vejo nos olhos dos clientes”, resume o artesão, cuja história se confunde com a própria tradição do brinquedo de madeira em Lavras.

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