Entre violão, literatura e um planeta imaginário em ruínas, médico e compositor revisita um trabalho lançado originalmente em vinil e completa seis décadas de trajetória artística.
Aos 76 anos, o médico Eugênio Gomez decidiu voltar no tempo — mas sem deixar de olhar para o presente. Quarenta e quatro anos depois de lançar em vinil o trabalho que inspirou o projeto, o compositor catarinense de nascimento e mineiro de coração revisita suas próprias canções em “Recordações de Amon”, novo trabalho musical que reúne cinco composições e já pode ser ouvido no YouTube.
Gomez assina letras, harmonias e músicas. Nesta nova versão, as canções ganham as vozes das cantoras Bárbara Barcellos (Recordações de Amon) e Mariana Nunes (Cantiga Vista da Lua e Zero), nomes conhecidos da cena musical de Belo Horizonte. O projeto também tem um componente familiar: as faixas “Aboio” e “Infância” contam com a participação de Lu Gomez, filha caçula do compositor.
Barcellos construiu uma trajetória marcada por encontros e parcerias com nomes como Toninho Horta, Tavinho Moura, Milton Nascimento, Beto Guedes e Telo Borges. Mariana Nunes também traz no currículo apresentações ao lado de artistas como Milton Nascimento, Vander Lee, Mônica Salmaso e André Mehmari.
Em entrevista ao Curta Lavras, Gomez explica que “Recordações de Amon” nasceu do desejo antigo de revisitar um trabalho que permaneceu guardado por mais de quatro décadas. A nova leitura amplia as possibilidades das composições e passeia por diferentes ritmos, entre xote, reggae, sonata e toada.
O nome do projeto vem de “Amon”, planeta apresentado no filme Barbarella, clássico dirigido por Roger Vadim, com Jane Fonda no papel principal e John Phillip Law como o anjo cego Pygar. Na história, Amon é um planeta degradado que acaba destruído por uma bomba — uma imagem que, para Gomez, continua carregada de significado.“Amon é um planeta bizarro e degradado que no final é pulverizado pela bomba. Qualquer semelhança com a Terra não é mera coincidência.”
Segundo o compositor, a vontade de reeditar o trabalho existia há anos. Agora, as antigas canções aparecem em uma produção mais intimista, acompanhadas por vídeos gravados em estúdio. “Sempre tive o desejo de reeditá-lo. Os vídeos de estúdio estão lindos e intimistas. As músicas, desta vez, estão com total suingue.”
O lançamento também marca 60 anos de trajetória artística de Eugênio Gomez. Seu primeiro trabalho musical, “Terceiro Amor”, chegou ao público uma década atrás, reunindo 14 canções de sua autoria.
A relação com a música, porém, começou muito antes. E o processo de criação de Gomez passa longe de fórmulas prontas. Ele conta que suas composições não seguem regras e que a literatura ocupa um espaço central em sua formação. “Todas as minhas composições não obedecem a regra alguma. Minhas influências são 80% literárias. Sou um leitor voraz.”
A criação, segundo ele, acontece sem pressa. A melodia costuma aparecer primeiro, enquanto as harmonias são trabalhadas exaustivamente ao violão antes que as letras encontrem seu lugar. “Meu processo criativo é lento, sem regras e sem compromisso com nada. A melodia sempre antecede as letras. As harmonias são muito e exaustivamente trabalhadas ao violão, sem pressa nem compromisso.”
O retorno com “Recordações de Amon” dá sequência a uma trajetória que também passa pela literatura, pela medicina e pela família. Eugênio Gomez é pai da premiada dramaturga belorizontina Silvia Gomez, mas criada em Lavras, e da atriz lavrense Débora Gomez, que construiu carreira na televisão, no cinema e no teatro e interpreta a boneca Emília na nova versão de Sítio do Picapau Amarelo do SBT.
Eugênio também era irmão da atriz e diretora Yara de Novaes, referência no teatro, na televisão e no cinema brasileiro. A relação familiar reunia dois nomes ligados às artes e à cultura, cada um com sua trajetória de destaque no cenário artístico nacional.
Antes de “Recordações de Amon”, sua última empreitada musical havia sido “As Terras do Sem Fim”, lançado em 2023. O álbum presta homenagem ao maestro mineiro José Guimarães, compositor que, segundo Gomez, morreu sem receber o reconhecimento que merecia. Para o projeto, ele colocou letras em melodias deixadas pelo músico. O primeiro CD autoral, “Terceiro amor” , disponível no YouTube, com 13 canções.
Agora, aos 76, Eugênio Gomez retorna às próprias memórias para mostrar que algumas canções não envelhecem — apenas esperam o momento certo para serem ouvidas novamente.
“Recordações de Amon” está disponível no YouTube e nas plataformas digitais.
















