terça-feira , 17 fevereiro 2026
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Em Tiradentes, curtas veem as belezas e os horrores do trabalho hoje e pela história

Cena do filme ‘O Ponto do Mel’, de Mirian Oliveira e Pedro Lessa – Divulgação. 

Obras como “O Ponto do Mel” seria bons argumentos para reativar a antiga lei do curta, que obrigava a exibição de um pequeno filme brasileiro antes das sessões de longas estrangeiros.

Cativante e singelo, o trabalho da Paraíba, dirigido por Mirian Oliveira e Pedro Lessa, encerrou a primeira seleção da mostra Foco, na Mostra de Cinema de Tiradentes, na noite de segunda.

A proposta de mostrar o funcionamento de um engenho no sertão, em Poço de José de Moura —região em que Oliveira cresceu—, impressiona tanto pela objetividade como pela execução coerente, investindo com rigor técnico, pesquisa e, talvez o melhor, disposição de dialogar com um público mais amplo que os espectadores do festival.

Difícil não se deixar levar pelo carisma dos trabalhadores do canavial, que abrem o filme com um duelo de repente. Não na levada mais conhecida, com pandeiro, mas naquela conduzida pelo canto arrastado do aboio.

Essa abertura, rodada num pequeno plano-sequência não estava nos planos iniciais da dupla de cineastas —foi sugerida pelos próprios homens, conforme o projeto era construído ao lado da associação.

“O Ponto do Mel” poderia, de maneira fácil, se reduzir a um produto publicitário apenas criativo ou ingênuo, mas não é o caso. E prova da eficácia do seu didatismo —alinhado, nas devidas proporções, com uma tradição do cinema educativo nacional, via Humberto Mauro— parece estar no seu processo.

Oliveira é professora de história e, com Lessa, fez exibições do trabalho em escolas da região. As crianças, dizem, se entusiasmaram ao ver a usina e os rostos tão conhecidos da localidade num filme. A própria diretora já frequentava o lugar na sua infância.

O prelúdio musical é seguido de pequenos capítulos dedicados ao ciclo de um engenho onde se exalta a organização dos operários. Não há patrão à espreita, o que não quer dizer que o trabalho não seja duro, complexo e dependente do coletivo.

Só se pode extrair o caldo da cana se alguém cortá-la, se um cuidar do motor para a moagem, e outro recolher o bagaço que, depois de seco, alimenta a fornalha, que por sua vez ferve aquele suco até a textura desejada.

Mais que um tour pelo cotidiano dessa usina, o curta registra pequenas interações entre aqueles homens —seus cantos de trabalho, as piadas, o almoço juntos, as agruras de cada função— antes de enfim o mel ser destinado à rapadura, batida, alfenim. A massa deste último precisa ser trabalhada e trançada com cuidado, antes que endureça —e o que não pode ser aproveitado fica para a criançada brincar e modelar.

E a equipe traduz cada uma dessas etapas numa estética agradável, sem pretensões senão ver a beleza daquela gente, do caldo borbulhando, da chaminé, de uma marmita.

E na mesa de debate sobre os curtas da seleção, nesta terça, a dupla de autores deixou entrever certa humildade quando repensar o roteiro a partir da visão da comunidade. Ficaram de lado, por exemplo, os comentários mais políticos sobre outros engenhos da região, controlados por famílias ricas, mas sem a mesma organização do sítio Silva.

O debate também valeu para compreender melhor o fio que conectava os outros três trabalhos exibidos na noite, nas tensões entre trabalho, território e memória. A abertura foi com “Crash”, de Gabriela Mureb, num filme que impactou a sala de cinema, apesar de ser o tipo de obra que se veria mais numa bienal de arte. Foi, afinal, fruto de uma residência artística na Alemanha.

Com cinco câmeras GoPro em diferentes pontos de um galpão da BMW, em Munique, Mureb mostra o processo final de um desmanche de um carro protótipo. Parte do público tapou os ouvidos durante a sessão, tamanho o volume dessa destruição.

Vemos, de diferentes ângulos, como a escavadeira rasga a lataria, arranca os circuitos, enrolando-os como um espaguete, amassa e compacta os carros. A depender do humor do espectador, a coisa toda pode soar tanto macabra como lúdica, conforme os gestos maquinais se humanizam.

Já a produção carioca “Outros Santos” de Guilherme Souza e Jorge Polo, exibida em seguida, trata da praia de José Gonçalves, batizada em referência a um antigo traficante de escravizados. Isto é, um “suposto” traficante, como afirma a placa oficial.

Pensado primeiro como um videoclipe da banda Oruã —não confundir com o rapper Oruam—, o curta se desdobra num pequeno exercício de horror, conforme uma trupe de amigos se hospeda no local e descobre, aos poucos, o sangue escondido nessas terras.

Por fim, “A Praga do Resíduo Verde”, que antecedeu “O Ponto do Mel”, apostou numa cômica desventura num prédio de Salvador, onde mora o diretor Ramon Coutinho. Em clima improvisado, ele rodou o trabalho com amigos numa diária, alternando entre eles os papéis de ator e câmera.

O curta evidencia a questão do trabalho ao acompanhar um zelador que lida, ao longo do expediente, com situações estranhas —como um lixo fluorescente ou um gato que desaparece na escada e vai parar na casa da dona. Uma obra, enfim, feita sob o signo do desbunde.

Fonte: Henrique Artuni/Folha de São Paulo.

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