sexta-feira , 16 outubro 2026
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Editorial: A história dos pracinhas brasileiros resiste; o monumento, não

A queda da estátua do Monumento dos Expedicionários, nesta sexta-feira (16), deve servir de alerta. O episódio expõe a fragilidade da preservação do patrimônio público e obriga Lavras a olhar para a forma como cuida de sua história.

Ao longo do último século, a cidade perdeu mais de 80% de seus casarões coloniais. Muitos desapareceram na calada da noite, abrindo espaço para uma cidade moderna, mas que parece ter deixado parte do próprio passado para trás. O crescimento e a atividade comercial transformaram Lavras, especialmente a partir da década de 1950. Preservar a memória também precisa fazer parte desse desenvolvimento.

O monumento da Praça Leonardo Venerando, antiga Praça da Bandeira, homenageia os 69 lavrenses que participaram da Segunda Guerra Mundial. Inaugurado em 27 de março de 1987, completará 40 anos em 2027. Na Praça Dr. Augusto Silva, perto da fonte luminosa, outro monumento lembra o cabo Joaquim Severino e os soldados José Antônio dos Santos e Joaquim Onílio Borges, mortos nos campos de batalha da Itália.

Os homenageados integraram a Força Expedicionária Brasileira, que enviou mais de 25 mil brasileiros à Itália. Eles combateram em batalhas como Monte Castello e Montese, na campanha dos Aliados contra as forças nazifascistas. A FEB teve 454 mortos na Itália. Esses monumentos dão rosto e lugar à história de quem partiu para lutar e de quem não voltou.

A história do monumento também é uma história de mobilização comunitária. Segundo o historiador lavrense Wagner Gonçalves, os veteranos organizaram uma associação e, com a ajuda de moradores e comerciantes, arrecadaram recursos para erguer a estrutura e a estátua. Jornais da época, livros e documentos registram a luta dos expedicionários por reconhecimento e os nomes de quem contribuiu para a homenagem.

A indignação manifestada por moradores, entre eles a lavrense Vera Lúcia Boscolo Cunha, mostra que esse patrimônio continua tendo significado para a cidade. Em homenagem ao pai, que tinha orgulho de ter lutado e defendido o país, ela escreveu: “Em nome do meu pai, que tinha tanto orgulho por ter ido lutar e defender nossa pátria, manifesto minha tristeza e indignação por esse ato de desrespeito e vandalismo.”

A estátua precisa ser recuperada e voltar ao lugar de onde foi retirada. Também é necessário esclarecer as circunstâncias da queda e garantir cuidado permanente aos monumentos e demais bens históricos de Lavras. A preservação da memória não se resolve apenas quando uma obra cai: exige atenção contínua, planejamento e respeito pelo que foi construído por gerações anteriores.

Reconhecemos os esforços da atual administração municipal para preservar os monumentos históricos, mas esse trabalho também depende do envolvimento de toda a população. É preciso que os lavrenses estejam atentos à conservação desses bens, ajudem a protegê-los e comuniquem às autoridades qualquer dano ou ato de vandalismo.

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