Ligia Amadio rege a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em 2023 –
A recente demissão da regente Ligia Amadio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, a OSMG, desencadeou uma onda de reações indignadas de maestros, instrumentistas, compositores e associações de músicos.
A saída de Amadio dos cargos de regente titular e diretora musical da orquestra tem mobilizado parte expressiva da cena brasileira do repertório clássico nas últimas semanas. Além disso, nas redes sociais, há manifestos e comentários sobre o episódio assinados por nomes e grupos da América Latina e da Europa, como a Orquestra Sinfônica Nacional, da Argentina, e a Associação Mulheres na Música, da Espanha.
No sábado (31), até foliãs do Carnaval de Belo Horizonte protestaram contra a demissão da regente. O bloco Sagrada Profana, formado por mulheres, levou às ruas uma faixa com os dizeres: “Viva Ligia Amadio”.
A OSMG, que completa meio século neste ano, é um dos principais corpos artísticos do Palácio das Artes, na capital mineira. Esse complexo público é administrado pela Fundação Clóvis Salgado, a FCS, que está vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, a Secult.
A crise foi deflagrada no dia 26 de novembro do ano passado, quando a comissão de cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais promoveu uma audiência pública para debater a precarização do trabalho dos músicos do estado.
Convidada para falar pela comissão, Amadio disse que a OSMG era “a orquestra mais mal paga deste país”. “Eu tenho a honra de dirigi-la, mas tenho a vergonha de que os músicos sob a minha direção enfrentem essa situação. Vou dizer quanto ganha um músico de fila quando entra na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, patrimônio público cultural e histórico deste Estado. Um músico de fila ganha R$ 1.618,72 [por mês]”.
“Músico de fila” é uma expressão usada para se referir aos instrumentistas de uma orquestra que se sentam da segunda fileira para trás, ou seja, que não são líderes do seu naipe.
Pouco mais de um mês depois da audiência, no início de janeiro, Amadio foi avisada pela fundação de que seu contrato havia sido encerrado.
Questionada, a FCS afirmou, em nota, que o contrato foi encerrado devido a uma readequação da programação neste ano. “Para comemorar os 55 anos do Palácio das Artes, [a fundação] decidiu homenagear regentes que já estiveram à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e fazem parte dessa história, convidando-os para conduzir as apresentações previstas para 2026”.
Sobre o salário, a organização disse que a remuneração média dos integrantes da orquestra, considerando a folha de pagamento de janeiro deste ano, é de R$ 7.868,91. Segundo a fundação, nenhum integrante recebe R$ 1.618,72, como havia afirmado Amadio. A menor remuneração deste mês era de R$ 4.289,10, e a maior, de R$ 14.356,88.
A reportagem teve acesso a contracheques de três instrumentistas concursados da OSMG. Um desses músicos, há 12 anos na orquestra, recebeu pouco mais de R$ 1.600 como décimo terceiro salário em 2025. O valor inclui descontos com previdência e assistência médica.
A remuneração de outro integrante, também com 12 anos na OSMG, ficou em torno de R$ 4.500 em dezembro passado. O valor contempla gratificações e descontos. Um terceiro contracheque, de um instrumentista há 25 anos na orquestra, mostra o valor de pouco mais de R$ 7.000, também com gratificações e descontos.
Procurada pela reportagem, a maestra Ligia Amadio preferiu não comentar a decisão da fundação.
“A maestra Lígia Amadio precisa ser respeitada, valorizada e reconhecida pelo excelente trabalho à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, umas das orquestras mais importantes do Brasil e por sua dedicação e preocupação com os músicos. Um contrato de um maestro sério e comprometido com o trabalho jamais poderia ser terminado assim”, comentou Roberto Minczuk, maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e um dos principais regentes do país.
Por meio das redes sociais, outros maestros lamentaram a decisão, como Carlos Prazeres, da Orquestra Sinfônica da Bahia; Cinthia Alireti, da Sinfônica da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas; e Tiago Flores, da Orquestra de Câmara da Ulbra, a Universidade Luterana do Brasil.
Também vieram à tona críticas à demissão assinadas por instrumentistas renomados, como os violinistas Elisa Fukuda e Emmanuele Baldini, spalla da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e os pianistas Clara Sverner, Jean Louis Steuerman e Maria José Carrasqueira.
“É simplesmente lamentável que, por defender o interesse de seus músicos (…), foi afastada da orquestra para a qual ela trouxe sua dedicação total”, escreveu Steuerman. Compositores, como João Guilherme Ripper e Rodrigo Lima, também se manifestaram.
A Associação Mulheres na Música, da Espanha, pediu “a adoção de medidas de reparação que restituam o bom nome e a dignidade profissional” da regente. Grupo que reúne mulheres à frente de orquestras e coros no mundo todo, o Simpósio Internacional das Mulheres Regentes também lançou carta de apoio a Amadio.
Um abaixo-assinado que pede o retorno dela à OSMG reunia mais de 13 mil assinaturas até a publicação deste texto, na noite de terça (3).
Fonte: Naief Haddad/Folha de São Paulo.
















