Cena do filme ‘Di Cavalcanti’, de Ana Carolina – Divulgação
A estreia de um novo longa de Ana Carolina é sempre um acontecimento. Autora de Mar de Rosas, de 1977, a cineasta costuma lançar um ou, no máximo, dois filmes por década. O longa que chega agora tem como centro Di Cavalcanti, a quem Glauber Rocha havia dedicado um curta por ocasião da morte do pintor, contrapondo vislumbres de suas telas a imagens de seu velório.
Distante da estrutura convencional dos documentários biográficos, muitas vezes baseada em entrevistas e nas chamadas talking heads, Di Cavalcanti, de Ana Carolina, abraça recursos da ficção e a irreverência característica da cineasta para narrar a tumultuada história do modernista.
As peripécias da vida de Di são contadas pelo ator carioca Julio Adrião, que interpreta o sobrinho de um amigo do artista. Ele lê parte da correspondência do pintor e encontra interlocutores que o ajudam a abordar facetas pouco gloriosas do personagem.
Às cenas ficcionais gravadas por Ana Carolina, ambientadas principalmente no Rio de Janeiro atual, soma-se um precioso material de arquivo. Jean Manzon havia filmado o artista para um documentário no início dos anos 1970.
Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (1897–1976) parece emprestar algumas de suas características a Adrião. Sua interpretação combina improviso, desalinho proposital e deboche, mesmo nos momentos mais tensos. Um copo de cerveja está sempre à mão.
Longe de sacralizar ou monumentalizar o mestre carioca — contemporâneo de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade —, Ana Carolina traça um retrato bastante humano, atento às dificuldades materiais do protagonista e à ajuda que recebeu de amigos mais afortunados e estáveis.
Di trabalhou inicialmente como ilustrador, publicando em revistas como Fon-Fon e O Pirralho. Ao longo da vida, também foi jornalista e cronista, escrevendo para diversos veículos da imprensa, entre eles o Diário Carioca.
Com pouco dinheiro, precisava desses trabalhos para pagar as contas e vivia com pouco conforto. Morou por um período na Zona Norte do Rio. No filme, Adrião aparece em pé, num trem lotado rumo ao bairro do Engenho de Dentro. Di foi preso três vezes. Em uma temporada, sem ter para onde ir, pediu abrigo na fazenda Santa Teresa, da amiga Tarsila do Amaral, no interior de São Paulo. No longa, Adrião procura a propriedade em um carro de aplicativo que o deixa numa estrada de terra.
Insólitas, essas e outras sequências enfatizam mais os percalços do que os louros da vida de Di, tido como idealizador da Semana de Arte Moderna de 1922 e célebre pelas formas arredondadas de seus retratos e pelos painéis monumentais, como o do Teatro Cultura Artística, em São Paulo.
Entre botecos, Adrião contracena com garçons, músicos e outros personagens que trazem elementos de figuras importantes da vida do pintor modernista.
A personagem de Tuna Dwek, por exemplo, carrega traços de Noêmia Mourão (1912–1992), aluna de Di que se tornou sua segunda mulher. O casal viveu junto em Paris, nos anos 1930.
Nessa e em outras temporadas, a capital francesa foi, para ele, território de descobertas artísticas, recepções prestigiosas, vida desregrada e precariedade financeira. Em uma carta escrita depois de encontrá-lo na França, Mário de Andrade observa que Di estava gordo e descuidado.
Com Noêmia, Di trabalhava como correspondente internacional e estudava pintura. Com o início da Segunda Guerra Mundial, os dois voltaram ao Brasil, fazendo uma escala na Itália. Sobre aquele período, o próprio Di escreveu a respeito das obras de Da Vinci, Michelangelo e Caravaggio — não exatamente para expressar fascínio. Na realidade, sentia-se humilhado pela potência daqueles gênios.
A atriz Cristina Pereira, conhecida pelo papel da filha em Mar de Rosas, faz uma participação especial no novo longa, que funciona como uma assinatura de Ana Carolina.
Se o filme consegue retratar a humanidade de um personagem icônico, fica a sensação de que a obra de Di poderia ter sido mais vista e analisada em sua evolução e em suas escolhas formais.
Os contornos singulares dos personagens pintados por ele aparecem, mas sem que a câmera se detenha nas composições — à exceção, talvez, da cena em que Adrião aparece diante de uma mulher negra que posa nua, em referência às célebres mulatas do pintor.
Contemporânea de Glauber Rocha, Ana Carolina atualiza e expande Di Cavalcanti Di Glauber, de 1977. Grandes cineastas formados pelo Cinema Novo, ambos enxergam a humanidade — e a fragilidade do homem — por trás da obra, cujo colorido não esconde por completo as agruras do trabalhador brasileiro.
Fonte: Folha de S.Paulo
















