Nesta série, apresentamos alguns Mestres da Cultura Popular de Lavras.
Por Giselle, presidente do Instituto Phos.
Há quase duas décadas, Mestre Mateus constrói uma trajetória contínua de valorização da capoeira como expressão da cultura afro-brasileira e ferramenta de transformação social. À frente do Grupo de Capoeira Capoeirart, fundado em 2007, ele consolidou um trabalho que une formação cultural, prática corporal e fortalecimento comunitário, com atuação que ultrapassa os limites de Lavras e alcança outros municípios de Minas Gerais.
A relação com a capoeira começou ainda na infância, em 1994, quando iniciou sua formação aos 10 anos, sob orientação do Mestre Luiz. Ao longo dos anos, aprofundou seu vínculo com a prática e, em 2005, passou a ministrar aulas, iniciando sua atuação como educador. A fundação do Capoeirart, dois anos depois, marcou o início de um projeto próprio voltado à ampliação do acesso à cultura e à preservação dos saberes tradicionais da capoeira.

Desde então, o trabalho se estruturou de forma contínua e organizada. Atualmente, o grupo mantém cinco núcleos de ensino ativos em Lavras, Juiz de Fora e Santo Antônio do Amparo, atendendo cerca de 160 alunos por ano. As aulas acontecem de forma regular, com duas atividades semanais por núcleo, envolvendo crianças, adolescentes, jovens e adultos em um processo formativo que vai além da prática física, incorporando história, musicalidade e rituais da capoeira. Ao longo da trajetória, aproximadamente 3 mil pessoas já participaram das atividades desenvolvidas pelo grupo.
Além das aulas, Mestre Mateus organiza rodas públicas mensais na Praça Augusto Silva, em Lavras, reunindo em média 70 participantes e espectadores por edição. Esses encontros se consolidaram como espaços de convivência, difusão cultural e fortalecimento da presença da capoeira no espaço público. Outro marco importante é o Batizado e Troca de Cordas, realizado anualmente desde 2009, com cerca de 20 edições já promovidas e participação média de 100 pessoas, entre alunos e mestres convidados de diversas cidades da região.
A atuação também inclui participação frequente em encontros, apresentações e campeonatos, com média de dez eventos por ano, fortalecendo o intercâmbio cultural entre grupos e ampliando a circulação da capoeira. No campo pedagógico, o trabalho incorpora outras manifestações da cultura afro-brasileira, além do ensino de instrumentos tradicionais, como berimbau, pandeiro, atabaque e agogô.

O impacto social do Capoeirart se evidencia sobretudo na presença em territórios periféricos, onde quatro dos cinco núcleos estão localizados. Nesses espaços, a capoeira se torna uma alternativa de acesso à cultura e à formação cidadã, estimulando valores como disciplina, respeito, cooperação e responsabilidade coletiva. Ao longo dos anos, o trabalho também contribuiu para a formação de novos multiplicadores, com seis instrutores formados a partir das atividades do grupo.
A trajetória de Mestre Mateus também dialoga com outras áreas, especialmente educação e assistência social. Desde o início, as atividades foram desenvolvidas em escolas públicas e espaços comunitários, ampliando o acesso de estudantes à prática cultural. Entre 2009 e 2016, projetos realizados em parceria com a Prefeitura de Lavras e com o CRAS garantiram aulas gratuitas para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, reforçando o papel da capoeira como instrumento de inclusão e convivência comunitária.
Reconhecido por sua contribuição, Mestre Mateus recebeu, em 2024, uma Moção de Mérito Cultural e Aplausos da Câmara Municipal de Lavras. O reconhecimento institucional reflete uma trajetória marcada pela continuidade e pelo compromisso com a preservação da capoeira como patrimônio cultural brasileiro. Ao longo de 19 anos de atuação à frente do Capoeirart, seu trabalho se firma como referência regional, formando praticantes, fortalecendo comunidades e mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.
















